Ponto de Mutação

Na maioria dos dias, eu consigo controlar meu fluxo de pensamentos. Eles são muitos, mas consigo fazer com que eles percorram uma linha, mais ou menos reta, e terminem num ponto previsível. Isso me exige paciência e calma. Em dias como hoje, isso é impossível: as obras no hospital transformam minhas horas em pontos condensados de barulho e pó. O ruído das britadeiras se mistura ao dos carros, pássaros e vozes, e sinto meu controle se esvanecer em nuvens de cal e cimento.

Nesses momentos de estresse intenso é que percebo quais são os pensamentos que estive tentando controlar nas últimas semanas, e todos dizem respeito a ti. O teu rosto é a foz do rio que cada gota dos meus pensamentos há de percorrer um dia a fim de juntar-se ao mar, completamente alheios ao fato de que esse é um mar tóxico e profundo que há de me destruir. Ao fim e ao cabo, todos os riachos e margens irão desembocar na tua alma. Pensei muito antes de escrever alma, e é por motivos claros e dolorosos que não escrevo corpo: o que hoje me arranca suspiros e gemidos não é mais a tua pele, o teu cheiro ou o teu corpo sobre o meu (ainda que tudo isso me desperte um desejo intenso), e sim a tua permanência, a tua presença nas minhas horas, a tua promessa de que irás ficar aqui. Talvez esse seja o ponto de mutação em que uma paixão se transforma em afeto, e se um dia ficares, se transformará em amor.

É nisso que penso antes de dormir. Não penso tanto no toque suave da tua pele, nos teus gemidos, nos teus dedos e boca: penso em viagens, jantares, palavras. Penso em bilhetes, em juras de amor, e sobretudo, penso nas pessoas que nos tornaríamos caso estivéssemos juntas; e em cada segundo que passo sonhando, uma voz ao fundo me diz que nada daquilo jamais existirá. E mesmo sabendo de tudo isso, mesmo estando completamente ciente do meu destino, não consigo desejar-te mal; é impossível querer tuas lágrimas ou a tua desgraça. Quero te proteger desse mundo, da dor e da agonia, e de alguma forma impedir que um dia sintas o que sinto agora, numa contradição absurda que nenhuma célula do meu corpo consegue compreender.

Meu amor e meus leitores, por favor, me perdoem a monotonia. De tantas coisas que há para se falar, eu só sei falar no amor. Não sei escrever sobre política, viagens, arte, literatura. Sequer sei escrever sobre a medicina. Só sei falar sobre nós, ainda que essa entidade “nós” só exista nos porões do meu coração. Sendo assim, discorro horas e textos sobre algo que nunca nasceu, nunca existiu; com isso, afundo mais e mais nesse mar deletério e pegajoso, e meus pulmões sequer percebem que se inundam e afogam. Meu destino está traçado: morrerei de amores. A bem da verdade, já estou morrendo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s