Respostas

Teus olhos marejados de silêncio me encaram, e eles dizem mais do que livros inteiros. Sei que errei, e naquele momento constato que meus erros me perseguirão por muito tempo: enquanto eu esquecia teus pequenos deslizes em poucos minutos, tu te agarravas a meu grande erro de ontem. Tentei te explicar, mas me faltavam argumentos…

Amores não-declarados

São 16:35 de uma sexta-feira e eu ainda não consegui sair da cama; a agonia pressiona meu peito e trava minhas pernas. Eu quero voltar para onde eu estava vinte e quatro horas atrás: arrumando a casa, naquelas confusões que se instalam no fim dos semestres, com a comida pré-preparada na geladeira, ao lado do…

Atlas

Em uma dessas raras manhãs de primavera que despertam secas, lembrei de você. Talvez fosse por ter pintado meu cabelo na noite anterior, e aquele vermelho vivo sempre me lembra de uma tarde gorda de quarta-feira, gravada em minha memória através dos teus cabelos iluminados pelo sol hediondo que brotava da minha persiana quebrada. De qualquer forma, não…

Dazed and Confused

Quinze noites seguidas. Talvez dezesseis, dezessete. Não sei precisar, e não me atrevo a contar. Elas têm passado tão depressa, mas quando olho para trás, parece que estou há anos nesse mesmo impulso. Quero parar, voltar para casa e dormir por dois longos dias. Quero ficar na cama, abraçada em um travesseiro, assistindo um seriado…

Máquinas do tempo

Quando eu era criança, meu grande sonho era voltar no tempo. Pensava em todas as coisas que faria diferente, as noites que passaria em claro, as diversões que teria. Desde cedo, já carregava comigo esse sentimento hediondo e pegajoso de que não havia aproveitado o bastante. Não havia vivido, amado e sorrido o suficiente. Acho…

Sobre dizer adeus

  – As duas coisas de que mais gosto – disse D., enquanto saíamos do hospital em uma tarde chuvosa de sexta-feira – são as seguintes: apaixonar e desapaixonar. Aquilo me pegou de surpresa; não julgava que D. fosse o tipo de homem que realmente gostasse de se apaixonar. Além disso, o que é desapaixonar?…

Fire Eater

Ouvi o escárnio líquido que escorria, feito ácido, da sua boca. Pensei em duas ou três respostas, e enquanto uma era agressiva demais, julguei as outras demasiado mansas. Optei pelo silêncio, esperei que ele fosse embora e respirei fundo. Nada me doía mais que a impotência que me obrigava a permanecer calada e imóvel, uma aliada da…

Silêncios Povoados

Era mais uma manhã cinza na capital, e por algum milagre, eu havia escapado da chuva ao me deslocar de casa para o hospital. As dezenas de vezes que acordei durante à noite por conta dos barulhos do temporal me levaram a uma anedonia matinal quase insuportável; quando terminei a terceira ecografia do dia, já sentia…

A falta de cor

Eram onze da manhã quando senhora X. entrou no consultório. Como de costume, apertei a sua mão, que estava fria e trêmula. Sra. X diz ter consultado o médico por um problema que havia visto no espelho. Após alguns minutos de anamnese, pedi que tirasse a roupa e me mostrasse o tal problema. O consultório…

As cores da cidade

Um dia me disseram que esta cidade é cinza. Eu não entendi; desembarquei nesta metrópole numa sexta-feira vermelha, de céu azul e um pôr-do-sol elétrico, entre o verão e o outono – aquela época do ano em que os poros estão sempre abertos, assim como os olhos e os braços – e quando abracei esta cidade,…