The sound of silence

Havia sido um longo dia no hospital. A sucessão de reuniões, consultas e procedimentos acabou com meus intervalos: só me dei conta que não havia almoçado quando o dia já beirava as três da tarde. As horas se misturavam umas com as outras, a chuva cedendo e recomeçando, a eletricidade por vezes falhando. Em um dia onde nada parecia funcionar adequadamente, mantive a cabeça erguida, sentindo a aura de frescor que vem depois de um final de semana restaurador. Eram sete horas da noite quando declarei o expediente por encerrado e me preparei para ir para casa.

Eu havia esquecido os óculos em casa, e não enxergava adequadamente. Ao guardar minhas coisas e me encaminhar para a saída do hospital, ouvi seus passos e olhei na sua direção. Meus olhos enxergaram uma mulher de cabelos negros e vestido azul, com um rosto nublado pela minha miopia, mas meu coração já sabia que era você.

Deixei ali bolsa, jaleco e livro. Virei meu corpo inteiro em tua direção, parte de mim desejando que meus olhos estivessem certos e aquele rosto não fosse o teu, mas mais uma vez, foi meu coração quem acertou. Encarei teus olhos, profundamente, embasbacada pela tua presença no hospital. O que fazias ali? O que fazias ali… numa segunda-feira à noite? Eu me faria tais perguntas centenas de vezes ao chegar em casa, mas naquele instante eu só encarava teus olhos, esperando uma saudação, um olhar, qualquer coisa.

Quase tarde demais, teus olhos me viram. Eles me encararam, acariciando os porões de minha alma e os inundando com ondas de desprezo. Eu vi nojo e desgosto nos teus olhos, e o sentimento que me invadiu naquele instante foi um só: a sensação de que meu coração estava sendo mergulhado em ácido. Como podiam aqueles olhos, que um dia me encararam com afeto e esperança, hoje transbordarem asco e desprezo? Como podia permanecer calada a tua boca, sem responder ao meu pálido “oi”? Meu corpo inteiro se virou na tua direção, suplicando qualquer tipo de atenção, qualquer coisa que acabasse com aquela amarga indiferença, e encontrou o som dos teus sapatos pisando no chão frio de cerâmica, as pegadas marcadas pela água da chuva que ainda escorria, mais forte do que nunca.

Permaneci ali, por um, dois, três minutos – esperando que você desse a meia-volta e dissesse que estava louca, que não tem cabimento uma coisa dessas, me encontrar no meio desse hospital enorme e nem sequer me direcionar um cumprimento. Esperando que você me dissesse qualquer coisa como “e aí, como vai a vida?”. Não esperei, em momento algum, beijos ou abraços. Mas permaneço aqui, já em casa, atônita com a falta de respeito a tudo o que vivemos, tudo o que compartilhamos. Em meu coração, nossas memórias merecem mais do que o silêncio.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s