Permanência

em

Escolhi uma mesa ao lado da janela e esperei Bruna chegar. Ela não costumava se atrasar; nesses cinco anos de amizade, eu costumava ser a segunda a chegar. Nós nos conhecemos durante o curso de Medicina, que Bruna irá terminar ano que vem.Encontrar uma lésbica no meio médico é algo inusitado, como um alinhamento planetário. Nossa amizade veio naturalmente, e se manteve até então. Eu estava curiosa para saber o que ela estava achando do internato, os dois anos de estágio obrigatório da formação médica.

Bruna chegou calada, sentou-se na mesa e fez o pedido antes de me cumprimentar. Consegui perceber que algo não estava bem, e que o motivo daquele almoço era justamente me informar do que estava acontecendo.

– Tudo bem?
– Sim! Desculpa o atraso.
– Bruna, tô falando sério: tudo bem mesmo?

Ela suspirou. Bruna fala pouco, mas suas expressões dizem mais do que palavras. A testa se enrugou, ela olhou para janela e abanou a cabeça, como quem diz “não é nada de mais”, e respondeu:

– Então. Troquei de equipe no internato semana passada. Tô na mesma equipe da minha ex-namorada.
(Prato do dia: lesbian drama.)
– Uhum…
– Preciso ver ela todos os dias. E acho que isso tá me fazendo mal, sabe? O que você acha?

De uma maneira ou de outra, Bruna sempre busca meu aval. Geralmente, eu sou a última palavra quando ela precisava tomar alguma decisão relativa ao curso de Medicina. No entanto, eu nunca fui boa em dar conselhos amorosos, e a menina já me perguntava o que eu achava da sua própria aflição, como se o fato de eu achá-la justificável ou não fosse mudar alguma coisa. Resolvi assumir o papel do psiquiatra e conduzir aquela resposta com perguntas, já que eu não teria as respostas.

– Você claramente está aflita. Mas por quê? Faz tanto tempo que vocês terminaram… por que isso ainda te deixa mal?
– Não sei. Eu não consigo aceitar que nossa amizade, que todo o nosso relacionamento, acabou por tão pouco. Na verdade… o que me ressente é que não somos amigas. Porque, olha só, eu seria amiga dela. Se ela me perdoasse. Detesto esse clima estranho nos corredores.

O término de Bruna e Juliana tinha sido tão complicado que eu não consegui acompanhar de perto. Na verdade, Bruna havia me contado tudo, mas a história era tão intrincada que eu nunca entendi ao certo o porquê do término. Algo a ver com expectativas diferentes, a estada de Juliana nos Estados Unidos por um ano e uma terceira pessoa na vida de Bruna (que jurava, de pés juntos, nunca ter traído a namorada. Eu sempre acreditei.)

A única coisa que permanecia viva em minha memória era a rispidez de Juliana durante o término. Surpreendeu-me que alguém pudesse usar palavras tão pontiagudas para terminar um relacionamento. Desde então, os amigos de Bruna não suportam ouvir falar em Juliana, e eu estava entre eles.

Não soube o que responder. A única coisa que me vinha à cabeça era uma imagem que tinha visto no feed do facebook da minha mãe, e nada mais. Resolvi assumir a pieguice e dar o tal conselho.

– Sabe, Bruna… ontem eu li uma frase no facebook. “Algumas pessoas vão ficar no nosso coração, mas não nas nossas vidas”. Acho que se aplica bem à tua situação.
– Facebook? Tu fez uma conta?
– Não, vi no facebook da minha mãe…
– O teu conselho é uma mensagem do facebook da tua mãe? É isso o que tu tem pra me dizer?

Tentei rir da situação, mas não consegui. Saiu um meio-riso estranho, e ficamos imersas na nuvem do meu constrangimento por alguns minutos. Enfim, o garçom veio servir os pratos, para meu alívio.

– Desculpa, você tem razão – Bruna murmurou. – Acho que eu não consigo aceitar isso, tantos anos depois. Eu me apaixonei por outras pessoas, eu amei outras pessoas, mas não é por isso que consigo deixar de querer saber o que acontece na vida dela. Como pode isso acontecer? Como podem duas pessoas se conhecerem por tanto tempo, compartilharem tanta coisa, se amarem e se apaixonarem uma pela outra… e de um momento para outro, nunca mais terem sequer coragem de trocar um olhar?

Eu sabia o que era aquilo, e entendi a angústia de Bruna. Esse também era um questionamento que eu fazia na minha vida, um paradigma que eu não conseguia entender.

– Eu sei, Bruna. E te entendo. Mas… por que hoje? Por que você ainda quer isso, tantos anos depois?
– Não sei…
– Algo me diz que você sabe, Bruna. Mas você não quer admitir.

Bruna pousou os talheres, mirando a mesa. Durante um longo tempo, ela parecia vasculhar sua alma em busca da resposta para aquela pergunta. Por que esse desejo tão permanente, anos após o término? De tantas amizades para se querer, por que justamente essa?

Dois carros de propaganda eleitoral passaram na rua ao lado. Enquanto pensava, Bruna não pareceu sequer notá-los.

– Porque eu amo essa mulher – ela enfim respondeu, encarando meus olhos, os seus olhos como holofotes no meu rosto. – Eu não estou apaixonada, eu não quero nunca mais ter um relacionamento com ela, mas eu a amo.

Engoli em seco, aliviada pela segunda frase. Ela continuou, quase alheia à minha presença.

– Quando você ama uma pessoa assim, após conhecê-la por inteiro, suas qualidades e seus defeitos… você nunca vai deixar de amá-la. Porque você conheceu as profundezas de sua alma, as pontas afiadas da sua personalidade, e você permaneceu ali. Em dias quentes e chuvosos, no romantismo e nas brigas… Apesar de tudo o que ela é, apesar de tudo o que ela deixou de ser, e apesar de tudo o que ela fez ou deixou de fazer por você, você ainda a ama. E isso é pra sempre.

Eu assistia a epifania de Bruna, embasbacada, vendo ela desenterrar sentimentos há tanto tempo sepultados.

– Eu vou amar essa mulher para sempre – Bruna concluiu. E eu senti que levaríamos mais alguns anos para digerir essa verdade, pesada como chumbo.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s