Furto

Você roubou algo de mim, e eu não sei dizer o quê.

Desde que você chegou, você roubou minha solidão. Não falo da solidão ruim ou da melancolia, e sim da minha resignação em permanecer comigo mesma. Você me tirou daquele estado de contentamento e contemplação, daquela zona de satisfação com o pouco que eu tinha. Eu não dispunha de jantares caros, vinho europeu ou boa comida. Já tinha esquecido o que era carinho, uma boa noite de sexo, um abraço longo que diz muito mais do que palavras. E, por mim, estava tudo bem. Minha maior ambição era chegar em casa, beber uma taça de vinho e jogar as pernas para o alto. Eu já tinha me acostumado com os sábados à noite em casa, sozinha, com um filme e minha comida.

Mas agora eu só vou sossegar quando eu tiver você.

Você entrou na minha vida e injetou cor e vida nas minhas veias, e eu agora amargo uma longa abstinência, já que meu sangue e meus dias têm uma cor só. Você revirou a minha sala, bagunçou meus lençóis e fez meus olhos brilharem, e então você foi embora. 

Agora eu olho em volta, para tudo aquilo que costumava me satisfazer, e nada mais parece fazer sentido. Não vejo mais graça nos filmes, na minha comida, nas noites de sábado. O silêncio do meu apartamento costumava ser tranquilizador, mas agora ele é uma cápsula solitária.

Toda pessoa como eu quer ser tirada da solidão. Todo mundo quer vida correndo nas veias, brilho nos olhos, lençois bagunçados; no entanto, ninguém quer isso só por um instante. Eu queria te beber inteira,

mas só pude engolir um gole. Eu queria sentir tua pele macia, teu perfume doce, todos os dias. Eu quero deixar de te sentir só nos meus sonhos.

Quero sair desse limbo escuro, em que não te tenho e nem assim vejo sentido na solidão. Quero voltar a onde eu estava antes, o apartamento aconchegante, o silêncio pacífico. Se é pra nunca ser tua, prefiro ser minha. Daquele jeito que sempre fui, antes que você roubasse algo de mim.

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