Noites mornas, mares revoltos

Saio do hospital e volto para casa, sentindo o vento morno da noite recém-nascida. Ele contrasta com a brisa fria da manhã, e por ter saído de casa onze horas antes, sinto calor sob uma jaqueta de couro. As ruas estão paradas, milhares de carros se deslocando de volta para casa. Apesar do medo – do trânsito e da violência – vejo uma certa beleza naquilo tudo: as luzes, o inesperado silêncio, os semáforos sincronizados. Por hoje, decido voltar para casa em silêncio, sem o barulho do rádio ou das músicas.

A lua se enche no céu, a noite clara, sem nuvens. Estrelas esparsas iluminam meu caminho, e espero palavras suas – esperas cada vez maiores, cada vez mais escuras. Cada vez mais úmidas, de suor e aquilo que um dia se tornarão lágrimas. Nas tuas pausas, sinto que escorregas das minhas mãos, uma imagem que se desvencilha dos meus desejos. Um sonho e vários objetivos que viram pó, a cada dia que passa, a cada silêncio crescente.

Estou sozinha nesse mar que te pertence. Anoitece, e apesar de exausta e calejada, sou marinheira inexperiente, não-versada nestes oceanos. Meu navio pequeno, quase imperceptível, se perde nas noites e nas ondas. Uma viagem que iniciei sob um céu azul e um sol escaldante, mas que agora se torna um pesadelo.

Uma tempestade se aproxima, e eu consigo senti-la nos meus ossos. Tenho duas opções: ancorar em um porto e voltar para casa, para meus livros, minha solidão (com a qual aprendi a conviver) e minhas músicas, ou posso continuar navegando nesse mar obscuro, desconhecido, sobre o qual nunca se estipularam mapas ou rotas. Posso escolher a segurança ou abraçar a tempestade, sem nada além de um navio minúsculo, em busca de um destino cuja existência eu passo a questionar.

Ao escrever essas palavras, minha mente urge que eu volte. Minhas mãos tateiam corrente e âncora, ensaiando um movimento que já sei de cor; há tanto não me aventuro em outros mares que não os meus… a resposta parece lógica e óbvia. Não sou uma boa náufraga, e em tempestades anteriores, raramente consegui voltar inteira para casa. Mas meu coração grita o contrário, e há tanto tempo não saboreio uma tempestade que decido ir em frente, o gosto de sal já nos meus lábios, o barulho dos trovões ribombando em meus ouvidos. Iço velas contra o vento quente, presságio de relâmpagos, e navego rumo ao desconhecido mar dos teus braços.

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