Uníssono

Percebeu, enquanto andava por um comprido corredor de um museu antigo: embora os corpos estivessem separados, as mentes permaneciam unidas, desejosas de guerra, ansiosas por confrontos. Tudo ali, embora se esforçasse pelo contrário, lembrava Fernanda- e podia sentir, quase sem querer: era recíproco. Igualmente, Fernanda deveria estar pensando nela nesse mesmo momento, e também sentiria a clara tensão pré-guerra que se estabelecia em todos os silêncios. Aquele voto de silêncio era a calmaria que precedia a tempestade – e ambas estavam cansadas de tempestades.

Num belo dia, rendeu-se: talvez o voto de silêncio não fosse um voto, e sim um final. E em vez de Fernanda, ela poderia ser quem desse o fim à guerra. Não haveria tréguas, disso ela tinha certeza; o fim da guerra era o fim do amor. Não é, de alguma forma, todo amor uma guerra? Mentes, corpos, almas em combate. Nem sempre uma guerra sangrenta – mas aquela ali havia arrancado muito sangue. Perdas inesperadas e irreparáveis, que continuariam se prolongando até que uma das duas fosse definitivamente derrotada.

Estranho jogo, aquele, em que as mentes se mantinham tão próximas e os corpos tão distantes – quando, na verdade, os corpos concordavam, tranquilamente, e as almas jamais chegariam a consenso algum. Nunca era completo: quando os corpos se encontravam, as mentes gritavam; e, na distância física, embora a alma permanecesse tranquila, todo o resto gritava em agonia, a pele suplicando por mais, gritando em abstinência.

Sem pensar, numa dessas tardes chuvosas, lançou-se ao gramado mais próximo, confessando: havia perdido a guerra, mas não importava mais. Havia se cansado de tantas batalhas infindáveis em que ambas perdiam tanto. Enquanto os olhos fechados buscavam o céu, os pés espalhando-se pela grama verde e o corpo leve tendando atingir uma paz genuína (que apenas o abandono de tantas memórias poderia proporcionar), Fernanda apareceu.

Mesmo de olhos fechados, ela soube: Fernanda estava ali. Não foi pelos ruídos que descobrira, e sim pela aproximação de duas almas que se conhecem tanto. Saberia que era Fernanda, ainda que estivesse permanentemente cega e surda; seu coração lhe diria que ela estava ali, olhava para ela, a expressão séria, o corpo segundos depois encontraria o dela – e toda a guerra recomeçaria. Ela pensou em fugir, em correr, em gritar, para que tudo acabasse de uma vez só, mas quando abriu os olhos, percebeu: tudo, agora, convergia. A mente, os olhos, o corpo, a voz, a alma e o silêncio povoado: tudo concordava – era necessário uma trégua.

Pela primeira vez em uníssono, deram as mãos.

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