Aquele Sábado

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Alguma coisa aconteceu naquele sábado entre nós, e foi algo que só eu vivi. Você nem imagina que enquanto eu me escondia no banheiro daquela boate, meu coração falava. E gritava, e confessava, e dizia coisas que você nunca vai ter a paciência de ouvir, porque você é uma dessas pessoas que eu admiro e invejo, com a mente linear, a vida simples e a menor quantidade possível de dramas existenciais.

Naquele sábado, eu fiz o que sei de melhor: tomei uma tequila e alguns litros da tua cerveja, e antes que eu percebesse, o motivo das minhas idas ao banheiro era ter uma conversa profunda com meu amigo no celular. Você acha que a conversa era sobre você, e meu amigo também, mas ela foi sobre meu passado. Naquele sábado, eu percebi como meu passado me influencia na maneira com que vejo você.

Veja bem, eu cometi um erro alguns anos atrás. Alguém passou pela minha vida, encheu minha casa de flores perfumadas e injetou brilho nos meus olhos, mas eu não soube dar o devido valor. Expulsei esse alguém aos berros, e conforme o passar dos anos se fez regra, aquelas flores foram parar em outra casa. E desde então eu me arrependo por não ter dado uma chance real a quem me amou de verdade, e procuro evitar esse erro a todo custo. Isso me faz esquecer que há outros erros a serem evitados e outros cuidados a serem tomados. Mas naquele sábado, eu percebi que eles existem, e são muitos.

Meu amor, não leve a mal, mas desde aquele sábado eu tenho pensado diferente a respeito de nós. Não é que meu amor tenha diminuído, se é que podemos dar esse nome aos meus sentimentos. Não é que eu esteja pensando em outro alguém, ou que não esteja pensando em você. Mas é que, veja bem, se alguém me oferecesse o amor que eu hoje te ofereço, minhas reações não seriam como as tuas. Eu não permaneceria tanto tempo em silêncio ou cultivaria tantas desconfianças. Eu não procuraria outras mulheres, ainda que as circunstâncias bizarras o exigissem. Eu não daria a mínima para o que eles pensam – e você bem sabe que esse ambiente nunca nos abraçou de verdade. Se alguém me presenteasse com o amor que eu te dei, eu não usaria meias-palavras. Eu diria, com todas as letras, o que sei que você quer ouvir: aquilo que sinto por você.

E ainda assim, eu o digo, em longas frases entrecortadas pela minha respiração tensa. Todas as vezes, o silêncio me recebe como se eu fosse um hóspede em minha própria casa. As tuas reações, sempre tão mínimas e imperceptíveis, me fazem imaginar que meus sentimentos verbalizados te deixam sem jeito. Mas de uma forma ou de outra, toda vez que ultrapasso a segunda cerveja, você pede por mais. Pede por palavras, sentimentos, depoimentos. Há algum tempo, eles secaram. Eu não sei mais o que te dizer se vai ser silêncio o que receberei em troca.

Desde aquele sábado, tenho pensado que ainda há uma escolha a ser feita. Ainda há tempo de deixar tudo isso para trás e seguir outros caminhos. Mas aí eu me deparo com um dilema que tem tomado conta de todas as áreas da minha vida nos últimos tempos: que caminhos? Qual deles seguir?

A partir daquele sábado, comecei a entender que somos diferentes demais. A minha vida, tão viva e tão vermelha, tão dominada pelos meus sentimentos. A minha risada, tão forte e plena, e minhas lágrimas, tão profusas, jamais chegarão perto da tua linearidade, a eterna tranquilidade que se mantém até mesmo quando eu resolvo não aparecer. A tua risada contida, as lágrimas que não lembras de ter derramado… é como se vivêssemos em planetas diferentes. E eu me pergunto o que o silêncio significa nesse planeta de onde você veio. No meu planeta, só existem palavras explícitas, escritas em letras garrafais. Não há silêncio, apenas música.

E nessas idas e vindas, eu me pergunto se é possível um romance entre dois alienígenas de planetas diferentes. Passo horas me questionando, e a cada questionamento, meus sentimentos murcham, sedentos por textos, palavras, declarações ou qualquer coisa que eu faria se estivesse do teu lado.

Ao fim e ao cabo, sempre termino voltando aos teus braços. E me perguntando, pela milésima vez, o que é que teu silêncio quer me dizer. Até quando eu terei a paciência necessária para suportá-lo?

1 comentário Adicione o seu

  1. Ótimo texto! 😁

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