Abandono

em

Se você procura uma trilha sonora, acabou de encontrá-la.

Eu me lembro que, na primeira vez em que eu te vi, você me olhou nos olhos. Eu esqueci o teu olhar, mas lembro vividamente o que senti: teus dois olhos negros me cercavam como dois cavalos negros correndo em minha volta, e eu os encarava admirada. Você nunca percebeu o que fazia, e mais tarde eu perceberia que esse olhar te é inconsciente.

Eu nunca me livrei daquele olhar ou da tua voz rouca explicando um caso de obstetrícia. Os teus lábios pálidos, de alguma maneira estranha cabisbaixos, nunca me deixaram dormir em paz. Eu precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa que não fosse te olhar e concordar com as tuas condutas médicas. Eu necessitava tomar uma atitude, e quase todas as minhas células torciam pelo mesmo: que eu me aproximasse e tudo se acabasse com uma evasão tua, e assim eu poderia seguir em paz, sabendo que ao menos tinha tentado.

Mas você nunca fugiu, e aquela bênção de alguma maneira também me condenava. Eu segurei meu coração como eu sempre faço, mas dessa vez o mundo inteiro me dizia para eu me entregar. As palavras de Juliana caíram pesadas no meu colo, e meus sentimentos, que antes pareciam uma cruz a ser carregada, subitamente se transformaram nas chaves dos grilhões que me prendiam há tanto tempo. Eu me libertei daquelas algemas e me levantei, pela primeira vez em dez vidas. Pus-me em pé e te olhei.

Ainda dava tempo de fugir. Você estava em pé à minha frente, completamente inocente ao fato de que eu estava presa a paredes de chumbo alguns minutos atrás. Eu poderia simplesmente me afastar, dando alguns passos para trás, e ao ver tua reação eu saberia quais são teus sentimentos: talvez você viesse na minha direção, ou quem sabe se distanciasse também. Era a coisa mais sensata a se fazer, mas eu olhei para esses dois olhos escuros como a noite e não consegui recuar. Tudo o que eu consegui fazer foi seguir em frente, pé ante pé, em pequenos passos que diminuíam a distância entre nós. Fiquei esperando o teu recuo, que eu já tomava como certo, e ele nunca aconteceu – isso fez com que esperanças brotassem no meu coração como flores crescendo no asfalto.

Até agora.

Esses dois pequenos passos que deste para trás talvez não sejam nada, mas ao teu menor sinal de recuo, eu me ajoelhei no chão. E aqui estou eu, adentrando mais uma vez essas conhecidas espirais de obsessão e ansiedade. A questão é que dessa vez eu tenho vinte e tantos anos, e não preciso de você. Dessa vez, eu te escolhi, desde o princípio, e mesmo assim mergulhei nesse mar de desespero. Apertei meu peito como quem busca algo imprescindível na própria caixa torácica, e só encontrei meus batimentos angustiados. No silêncio de uma quinta-feira, a menina dos olhos de prata me entregou um bilhete, e ele dizia o que eu precisava ler: pertença-se.

Enquanto me ajoelho no chão e te suplico em silêncio, eu percebo que não me pertenço mais. E quando penso em me pertencer de novo, o que me vem à mente é o meu corpo com outras pessoas, em outros lugares, e isso também não é me pertencer. Isso é tentar te esquecer da maneira mais suja que existe, antes mesmo de você ter ido embora de fato. Eu não consigo mais lembrar o que é me pertencer, e já não interessa: o fato é que eu não sou mais minha. Isso é maravilhoso quando você tem alguém para chamar de seu, mas minhas mãos continuam tão vazias como antes. Sinto vontade de gritar, mas tenho medo que você ouça – sendo assim, eu deixo as lágrimas correrem vivas em silêncio.

Olha pra mim e me tira desse chão. Diz qualquer coisa: que vai ficar ou que vai embora, mas rompe esse silêncio. Eu queria ter coragem de te pedir isso de fato, mas sei que minhas palavras quebrarão o fino equilíbrio que ainda existe entre nós, e eu me culparei por isso para sempre. Sendo assim, eu fico aqui, calada, admirando o chão ao qual pertenci pelos últimos quatro anos e sabendo, com a certeza de quem já amou um dia, que essa mania em te pertencer nos levará à ruína. Por te amar demais é que eu irei, ao fim e ao cabo, te abandonar.

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