As cores da cidade

Um dia me disseram que esta cidade é cinza. Eu não entendi; desembarquei nesta metrópole numa sexta-feira vermelha, de céu azul e um pôr-do-sol elétrico, entre o verão e o outono – aquela época do ano em que os poros estão sempre abertos, assim como os olhos e os braços – e quando abracei esta cidade, logo no primeiro dia, ela me abraçou de volta. Isso já fazem dez anos, e desde então, nunca parei para pensar sobre o que eu achava deste lugar.

Essa frase – “esta cidade é cinza” – ficou na minha cabeça. Repensei, analisei, e descobri que sim: meu lar tornou-se cinza com o passar dos anos. Não foi o sol ou o céu que mudou. Não foram as ruas, as construções (embora novos prédios tenham nascido sobre os escombros dos prédios antigos do centro), as calçadas: foram as pessoas que se acinzentaram.

Eu olho a minha volta, e todos são tão iguais. Vá lá, eu devo me incluir nessa: todos somos tão iguais. A pele escorregadia, os olhos sem brilho, o estresse, a falta de sono e de uma boa refeição. Ricos e pobres, médicos e pacientes, mulheres e homens: todos nós estamos cada vez mais cinzas. Vejo meus amigos, todos tão padronizados, caçando pokémons pela cidade. Talvez, pela tela do celular, eles a vejam menos cinza do que eu; no entanto, a cidade real continua sendo vista pelos olhos, somente eles, encarando o horizonte nas avenidas e parques. Até cogitei baixar o joguinho, até cogitei dormir um pouco menos, pra me adequar a tudo isso. Pra ver se consigo me misturar, camuflar tal qual camaleão entre estudantes, médicos, pacientes e enfermeiros.

Não consigo. Não é por ser melhor ou pior, veja bem, não sou o único pontinho colorido em uma cidade inteira (ainda bem!). Mas eu sinto, sinceramente, que quando se ama uma mulher de verdade, jamais se consegue ser realmente cinza. Não falo do amor que carrega sofrimento, e que te torna parte do asfalto em questão de poucos dias: falo do amor que faz os olhos abrirem um pouco mais e o palato subir, como se estivéssemos sempre sentindo um cheiro muito bom. Falo do amor que se nota na fila do pão, no ponto de ônibus, nas salas do SUS. Falo do amor que desamarra risos e colore sorrisos. Quando se está amando, não se consegue ser cinza: são coisas mutuamente excludentes.

Este é um lugar onde é fácil encontrar entretenimento, amigos, sexo. Mas é um lugar tão difícil quanto qualquer outro no que tange a encontrar amor. Até porque o amor não depende do lugar ou até mesmo das pessoas que o habitam; na maioria das vezes, ele depende de nós. Basta darmos uma chance, ou arriscarmos em tentar ganhar uma. Coisas difíceis nestes tempos modernos, em que mal temos tempo para nós mesmos e todas as coisas que precisamos “fazer dar certo”: afinal de contas, precisamos ter uma carreira perfeita, um corpo impecável, fotos lindíssimas nas redes sociais e sempre manter aquele sorrisinho simpático pra dar uma boa impressão. Junte a isso todo o entretenimento a que temos acesso, e fica difícil pensar ou agir em assuntos como esse. Ou vai dizer que você prefere arriscar o seu coraçãozinho ao ligar pra alguém a assistir toda a temporada Stranger Things em um dia?

Ainda não sei o que nos afasta mais do amor, se é a falta de tempo, o mau-humor generalizado, o medo de se machucar ou nossas mentes constantemente ocupadas.

Durante a minha vida, eu sempre me arrependi dos amores que deixei para trás. Quando pessoas com quem terminei – ou com quem nunca me permiti ter um relacionamento – eventualmente entravam num namoro aparentemente legal, eu sempre me sentia mal. Lá no fundo, batia aquele misto de inveja, ciúmes e arrependimento. Tudo com uma boa dose de cobiça. Os tempos mudaram, um tanto de maturidade veio se construindo com o tempo, e hoje eu acho isso tão lindo. Gosto de saber que pessoas que conheci ou com as quais tive algum relacionamento hoje estão bem, amando e sendo amadas. Porque nada faz mais falta nesse mundo do que amor (seja ele romântico ou não).

Talvez, com mais amor, essa cidade deixe de ser cinza. Talvez consigamos ver, aqui e ali, um brilho no olhar, um sorriso frouxo de quem se sente seguro nos braços de alguém. A bandeira gay sempre fez todo o sentido para mim: não há nada mais colorido, belo e intenso do que o próprio amor.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s