Tráfego de Emoções

Detesto essas aulas de auto-escola no fim do dia. A cidade inteira se enche e as pessoas correm desordenadamente, como formigas fugindo de um formigueiro machucado. Suspirei duas, três, quatro vezes, como de costume – cada vez que um ônibus ou caminhão passava ao meu lado, eu segurava a respiração.

Ao voltar para casa, percebi uma vantagem inegável de dirigir às seis da tarde: o pôr do sol é magnífico. Os céus inteiros se espalham, fumegantes e vermelhos, como uma orquestra tocando a trilha sonora de um filme dramático. Admirei, no vigésimo semáforo, as nuvens coloridas. Suspirei. Dessa vez, sem ônibus do meu lado. Meu instrutor percebeu:

– O que aconteceu? Tá nervosa?
– Não – respondi. – Só… pensando. Na minha vida.
– É mesmo?
– Sim. Pensando em como não consigo deixar as coisas acontecerem. Eu penso demais, sabe?
– Todo mundo pensa demais.
– Mas eu não sei viver, só pensar.

Embora meu instrutor da auto-escola já tenha me contado detalhes sórdidos da sua vida íntima, incluindo relacionamentos com uma colega casada e barracos inenarráveis (provavelmente motivado pela minha inacreditável idade: já passei dos dezoito há muito tempo), aquilo era inédito: eu nunca havia sido infimamente íntima em relação a ele. Ele não faz ideia de que eu seja gay, e nunca falei absolutamente nada da minha vida. Ele só sabe que sou médica, que trabalho no SUS, e minhas opiniões sobre a pediatria no Brasil. Permaneci calada, aguentando o gosto metálico que surge na minha boca toda vez que sinto que falei demais. Não era para ele que eu havia me exposto, e sim para mim.

Ele disse qualquer coisa como “Não dá pra pensar demais” e eu continuei dirigindo. Aquele carro pararia mais algumas dezenas de vezes antes que eu chegasse em casa, e em cada uma delas, eu sentiria uma angústia profunda. Não porque eu quisesse desesperadamente chegar em casa depois de um dia exaustivo, mas porque aquele trânsito representava a minha vida. Vias largas, muitos carros, muita coisa acontecendo. Muitas oportunidades, mas poucas coisas conseguem chegar ao seu devido lugar sem uma série de pausas, solavancos, mudanças de faixa e um estresse incrível…

Pensei melhor em tudo o que estava acontecendo: nunca estive tão bem na minha vida. Meu trabalho é ótimo, as pessoas são compreensivas e aprendo coisas novas todos os dias; consegui entrar numa rotina de sono, comida e exercícios físicos (uma raridade entre os médicos); estou completando a última resolução de ano novo de 2016 que faltava, minha carteira de motorista. E, há poucas semanas, encontrei uma mulher incrível. Deixa eu te explicar: incrível.

O que eu quero dizer por “incrível” é aquele tipo de pessoa que te faz colocar tudo em perspectiva. Todos os lances que você teve anteriormente, todas as pessoas por quem você já se apaixonou, todos os encontros: tudo isso perde um pouco do brilho, ofuscado pela luz de uma noite perfeita, que soa como o aperitivo de algo muito maior, o cartão de visitas para uma história que vai mudar a sua vida. E o que eu quero dizer por “noite perfeita” é que se você me perguntasse, um dia antes, como seria uma noite em que todos os meus desejos se realizassem, eu não conseguiria narrar algo tão bom (ok, talvez eu incluísse um bilhete premiado da loteria aí, mas isso é detalhe). Eu genuinamente acreditava que mulheres como aquela não existiam.

Mas, como nem tudo nessa vida são flores, no dia seguinte a tal mulher voltou para a sua cidade, a muitas centenas de quilômetros daqui. E eu estou aqui, à deriva, sedenta por uma bebida que só descobri aos vinte e tantos anos de idade, e da qual me foi permitida somente um gole. Um longo gole de conversas, sexo e beijos, e então tudo aquilo foi tirado de mim.

Nos primeiros dois dias, senti uma angústia ridícula. Percorria a casa, ansiosa, as mãos inquietas. Cheguei à conclusão de que algo surreal tinha acontecido: eu tinha vivido a melhor noite da minha vida, e no dia seguinte, eu estava triste e angustiada. O tempo passou, aceitei a distância, mas uma grande parte da minha mente insiste em saber o que raios está acontecendo.

Como vai ser agora? Vamos nos ver novamente? Eu vou finalmente sair dessa cidade que tanto detesto? Ou é isso, nunca mais? Mas se é nunca mais, por que nos falamos todo dia? Aliás, que intuito têm essas conversas? – são tantas perguntas que não sei responder.

Mil e uma dúvidas, e não sei responder absolutamente nenhuma. Dessa vez, não tenho sequer pressentimentos! Eu, que sempre amei estar no controle de tudo. Eu, que tenho os livros ordenados alfabeticamente, que planejo a roupa do dia seguinte antes de dormir. Eu, que sempre tive mil e uma amarras para me apaixonar, justamente para me prevenir de armadilhas como essa: desejar alguém que está a meio Brasil de distância. É a receita para dar errado, não é mesmo?

Você pode até dizer que para o amor, não há distância. E eu concordo. Mas… isso é amor? Você pode dizer que ama alguém com quem saiu numa quinta-feira mágica e nunca mais viu? E se não é amor, o que é isso? Lá vou eu nas perguntas infindáveis, mais uma vez.

Sei do óbvio ululante: preciso “deixar acontecer” e descobrir tudo isso no caminho. Mas assim como o trânsito lento e recortado, essas coisas estressam. Às vezes, tudo o que a gente quer é chegar em casa, especialmente quando nossa casa são os braços de alguém.

 

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