Fronteiras

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Ninguém espera um sábado de trinta e dois graus em agosto. Em quase três décadas habitando o sul do Brasil, eu nunca passei por um agosto tão quente – e talvez isso explique a súbita ausência de textos explicitando os máus presságios de agosto nas minhas redes sociais. Ao contrário dos últimos anos, não li nada a respeito de agosto ser um mês extremamente longo, sem feriados, em que pessoas costumam se sentir mal: foi um mês como qualquer outro.

O dia passou lânguido, com o lembrete de que eu precisava estar pronta às sete. Por “pronta” alguém poderia entender muitas coisas, mas não há muitas divergências a respeito de como uma mulher deve portar-se na formatura de um total desconhecido. Procurei espantar minhas vontades intermináveis de passar o sábado em minha cama, depois de uma semana inteira permeada por pacientes difíceis.

Resolvi, pela primeira vez na minha vida, pagar a alguém para retocar minhas sobrancelhas. Salões de beleza e similares são um território tão estrangeiro para mim quanto um laboratório de engenharia. Prazos e agendamentos não fazem sentido, e raramente um atendimento é pontual; Às três e meia de um sábado quente de agosto, uma mulher misteriosa chamou meu nome. Entrei numa sala pequena e me deitei sobre uma maca coberta por papel – não pude evitar o pensamento de que aquele papel me seria muito útil no meu consultório do SUS, onde eu preciso limpar a maca com um pano embebido em álcool depois de cada paciente. Deito-me na maca, estranhando o clima hospitalar de algo que tomei como simples. A mulher misteriosa me estende um lenço de papel.

– Para que serve isso? – perguntei.

– Para secar as lágrimas – ela respondeu. Esperei a ironia, que nunca chegou.

Saio do laboratório feminino com uma sobrancelha delineada, quarenta reais a menos e algumas lágrimas a mais. Tento me dizer que aquilo valeu a pena, que já era tempo e que certamente minhas expressões faciais estarão mais alinhadas, mas de alguma forma, não me convenço.

As sete horas se aproximam. Escolhi um vestido, uma cor de maquiagem e um sapato de salto. Não penso nas combinações, nas possíveis impressões alheias ou na correlação vestuário-tempo: fazia tanto tempo que não me vestia para um evento social que me senti uma alienígena durante todo o processo. Se você parar para pensar, nada disso faz sentido: em um momento feliz, como uma formatura ou casamento, eu não gostaria dos meus amigos vestidos em vestuários caros ou desconfortáveis – eu os quereria confortáveis, dentro das roupas que escolhessem, sem contar os segundos que conseguem suportar calçando aquele calçado ou vestindo aquela gravata.

Entro no salão e vejo pessoas felizes por um motivo tão efêmero (como todos os motivos que ocasionam grandes festas). Um amigo me pede para dançar, e meus pés doem em um salto de quinze centímetros. Meus passos são desajeitados e ele ri. Olho em volta, e meu problema não parece ser compartilhado por nenhuma mulher.

Olho em volta e vejo meninas desconfortáveis em mini-vestidos. Vejo-as tentando definir as fronteiras entre o sexual e o sensual, a ousadia e a exposição. Vejo-as abrindo mão da auto-aprovação para conquistar uma aprovação alheia que, sejamos sinceros, passa longe do comprimento dos seus vestidos ou da altura dos seus saltos. Vejo mulheres doentes, em busca de homens mais doentes que ela. Talvez, em toda minha vida, nunca tenha me sentido tão estrangeira.

Sem mais, entro no banheiro, tranco a porta e choro. Choro porque todas as minhas tentativas de ser uma mulher que a sociedade julga normal sempre se frustram. Choro porque nesses pequenos atos – a resistência inabalável dos meus pés a um salto 15 e a dois passos de dança – percebo que nunca serei uma delas. Nunca serei uma daquelas mulheres para quem o mundo talvez tenha sido planejado: serei uma mulher que não tem lugar no mundo, e que não se adequa a padrões que mesmo as outras mulheres, aquelas que se encaixam, julgam razoáveis.

Choro porque talvez o mundo não tenha lugar para uma de nós. Talvez o mundo não tenha qualquer vaga para uma mulher de saltos baixos, que se apaixona por outras mulheres, e não dispense a energia necessária para administrar 2kg de maquiagem no próprio rosto. Talvez ainda não exista lugar para uma mulher que decida pelo próprio destino, e opte pelo próprio conforto em vez da aceitação alheia. Talvez ainda não exista lugar para uma mulher que se preocupe mais com questões mais importantes que a própria imagem. Talvez o mundo nos queira doentes e neuróticas, afinal de contas.

Choro porque não entendo quem nos encarregou dos decotes, dos saltos e dos homens. E porque não entendo porque tudo isso foi se tornando natural, correndo ao largo do assédio e da objetificação. Não me enxergo nesses decotes, nesses saltos, nesses dois quilos de maquiagem, e sei que nenhuma mulher se enxerga – ainda assim, nenhuma de nós ousa abrir a porta de casa “de cara lavada”.

Volto para casa, os saltos na mão, os pés evitando os obstáculos da calçada – e preferindo um eventual caco de vidro ao martírio dos sapatos de salto. Não sei quando nos tornamos bonecas de luxo, e prefiro não pensar nisso – opto por rezar por um mundo que nos aceite como somos. Um mundo em que nos aceitemos como somos – e talvez esse seja o maior obstáculo de todos.

1 comentário Adicione o seu

  1. Gustavo Roubert disse:

    Que possamos libertar-nos das obrigações sociais desnecessárias e vivermos as espontaneidades individuais essenciais.

    Parabéns pelo capricho do texto, boa semana e um lenço de abraços.

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