Turbulência

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Somos 200 milhões, e com raras e pontuais exceções, todos nos sentimos um pouco confusos hoje. Fico imaginando que todos os brasileiros tiveram um momento como o que eu tive durante o banho, minutos atrás, de profunda incerteza e angústia. Talvez meus sentimentos sejam só meus, e eu não fale pela maioria – ainda assim, todos nós destinamos algum minuto dos nossos dias a pensar sobre a situação da nossa pátria.

Nunca me imaginei falando sobre política aqui, mas por hoje, é o que preciso fazer. Preciso drenar meus medos e incertezas, e só sei fazê-lo através das palavras.

Ontem, após a notícia que revolucionou o país, eu sorri. Sempre fui a favor de que corruptos – sejam políticos, candidatos ou colegas de trabalho cometendo peripécias no hospital – fossem expostos e punidos. Fiquei feliz em saber que nosso governo, tido como ilegítimo por muitos, sofreria profundas mudanças. Afinal de contas, detectar crimes e aplicar punições (muitas delas praticamente inéditas na nossa história de camaradagens e impunidade) é a coisa certa a se fazer.

Após alguns minutos, a euforia passou – e então percebi o que aquilo significaria na prática. Teremos um governo instável por dias ou poucos meses, até que um presidente de uma Câmara ainda mais corrupta governe por nós. Talvez ele solicite eleições indiretas… ou seja, ao fim e ao cabo, teremos um presidente eleito por uma corja de corruptos. Não pode-se esperar que tal presidente seja minimamente idôneo e ético.

Há outros caminhos possíveis, é claro, e qual deles será trilhado nem o melhor cientista político poderá prever. Ainda assim, não vejo caminhos melhores. Não vejo caminhos dignos para nós, um país tão belo, tão rico, tão alegre. Não vejo, no rol de possibilidades, um presidente à altura de todo o tempo, toda a vida e todo o trabalho que dedicamos a esta pátria… e até definições ocorrerem, amargaremos mais um período de instabilidade, incerteza e insatisfação.

Não sei como vocês enxergam a situação política atual, mas há tempos eu abandonei um cenário imaginado por muitos, em que a direita briga com a esquerda por um espaço no poder. Acho que essas convenções antigas já nos abandonaram há muito, e hoje imagino uma massa imensa de brasileiros insatisfeitos contra um seleto grupo de corruptos e vendidos fingindo que administram uma nação, enquanto governam por interesses próprios.

Alguns comemoram, eufóricos, a previsível queda do governo Temer. Nunca guardei qualquer simpatia com nosso atual presidente, mas questiono se o seu sucessor seria melhor em qualquer aspecto. Não consigo pensar num bom nome, imune aos tentáculos da corrupção, que tivesse alguma chance de presidir nosso país nas próximas semanas.

Peço desculpas pelo texto desprovido de alegrias e esperanças, mas escrever e depurar minhas frustrações se torna extremamente necessário neste momento. Amanhã minhas palavras serão diferentes – mas só por hoje, não consigo falar sobre amores e paixões. Não consigo escrever sobre pacientes e sobre corações. Só por hoje, não consigo nem ao menos ter esperança.

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