Regresso

Ainda sobre aquela viagem de Uber: enquanto os quarteirões se derretiam pelas janelas do carro, os pensamentos afloravam na minha mente como fogos de artifício. Tuas palavras me irritavam, e eu queria estar em qualquer lugar que não fosse aquele, mas estranhamente, eu sentia paz.

 

Pensando bem, não era paz: era resignação. Percebi, com pesar imenso, que estava retornando ao status quo da minha vida. Acredito que todos nós carregamos uma cruz, e ela é mais ou menos imutável ao longo da vida: os monstros que enfrentamos podem mudar de forma ou circunstância ao longo do tempo, mas são sempre os mesmos. Minha cruz sempre foi a solidão, e precisei de alguns meses na capital do mundo para perceber isso. Lembrei de todas as vezes, ao longo da minha vida, que me senti sozinha. Eram inúmeras; desde minha infância, a solidão havia sido quase uma melhor amiga. Pensei em como me sentia antes de te encontrar, e de como eu achei, por algum tempo, que aquilo havia finalmente mudado – dentro daquele carro, percebi que não, nada havia mudado, estar sozinha era mesmo o estado natural das coisas. Foi de imensa ingenuidade acreditar que dessa vez eu me libertaria desses velhos demônios.

 

Entrei na minha casa e tua presença ali me incomodava como nunca. Queria que você e essa mania maldita de beber demais simplesmente desaparecessem. Você perguntava pela milésima vez o que é que tinha acontecido, com a voz embargada de quem convenientemente não lembrava de nada, e eu não tinha mais paciência para responder. Tranquei a porta do banheiro e não conseguia mais chorar: só conseguia me encarar naquele espelho, meus olhos sendo meus únicos confidentes, com um olhar que combinava desprezo, pena, raiva e força, como tantas vezes antes. Aquela cena se repetia em tantos lugares do mundo – minha terra natal, Roma, Lisboa, Londres, Seattle, Porto Alegre. Não importa o quanto eu caminhasse ou quantas pessoas eu conhecesse; não importava o quanto minha vida mudasse ou o quando eu amadurecesse: tudo permanecia, ao fim e ao cabo, exatamente igual.

 

Você perguntou se eu queria que você ficasse ali, e eu não soube o que dizer. Por falta de coragem, respondi que sim. Você adormeceu antes de mim, e naquele momento, percebi que te perdoar de imediato para evitar a solidão me tornava ainda mais sozinha: eu sentia tanta raiva de mim mesma pela minha ingenuidade que não podia contar nem mesmo com a minha compaixão.

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