Escombros

em

São duas e meia da manhã e eu controlo meu choro. Não quero soluçar, gritar ou lamentar na frente daquele motorista de Uber. Ele não merece ouvir meus lamentos, e pra ser sincera, nem mesmo você. Tuas mãos encontram um caminho até meus braços, numa tentativa esfarrapada de me pedir desculpas, mas é com violência que eu as mando embora. Eu quero distância – de você, dessa noite maligna, de todas as coisas que aconteceram.

Tantas coisas me passam pela cabeça naquele trajeto até minha casa: uma delas é o quão frágil o amor pode ser. Tudo o que construímos nos últimos 7 meses subitamente parece ser feito de papelão, devido a uma escolha idiota da tua parte numa noite que esperávamos ser mágica. A proximidade da tua formatura, as festas, nossos inúmeros amigos em comum presentes naquela noite, as bebidas, a cerveja: tudo convergia para um ponto comum em que nós viveríamos uma noite inesquecível, como tantas antes dessa, em que eu te olharia e me consideraria abençoada por ter alguém que me diverte e me encanta tanto. Mas eu não esperava que coisas tão sombrias acontecessem – em nenhum momento dessa noite eu me preparei pra te ver beijando uma mulher na minha frente, pelo simples motivo de ter bebido demais.

Lembro de mim mesma horas atrás e minha ingenuidade me dói como uma lâmina afiada nas minhas entranhas. Olho para teu rosto incompreensível no carro, com uma expressão de quem não lembra de absolutamente nada, e acredito que os fatos realmente tenham escapado da tua memória. Isso me faz pensar o quão diferente somos – em nenhum momento da minha vida eu bebi o suficiente para machucar alguém e esquecer completamente disso.

Quero gritar tanto, mas seguro meus soluços. As lágrimas escorrem como tormentas dos meus olhos, minhas mãos tremendo, e então me pergunto como foi que escolhi alguém capaz de fazer isso comigo. Penso em tantas pessoas que conheci, pessoas que teriam me amado de uma forma mais justa, talvez menos feliz ou divertida, mas mais coerente. Lembro de pessoas por quem não me apaixonei, mas caso tivesse me esforçado o suficiente para permanecer, jamais receberia um ato sórdido desses em troca. Ainda assim, penso em todas elas e termino em você. Isso me deixa com raiva, raiva de saber que mesmo depois de tudo isso eu continuarei do teu lado, porque sei que isso é tão pequeno ao lado de tudo o que vivemos. Mas, ainda assim, eu me arrependo de ter dado alguns passos.

Nunca achei que eu fosse me arrepender por ter confiado em você. Nunca achei que eu fosse me sentir velha demais, calejada demais, para mais uma pessoa inconsequente.

Chegamos em casa, e ao invés de chorar e botar tudo pra fora, resolvo lavar o rosto e dormir. Você me pergunta dezenas de vezes o que foi que fez, e desisto de te explicar; a tua amnésia seletiva me irrita, as palavras enroladas, mais uma noite em que você bebeu demais e eu não tenho paciência para essas coisas. Talvez seja verdadeira aquela máxima de que as pessoas enxergam o que querem ver, afinal de contas.

Durmo inquieta, e pela primeira vez, teu corpo ao meu lado é um incômodo.

1 comentário Adicione o seu

  1. Gustavo Roubert disse:

    Seu texto é escrito com muito capricho. Parabéns.

    Curtido por 1 pessoa

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