Anéis de Saturno

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M. chega à minha casa ansiosa, com as palavras quase supurando no peito. Sinto que ela precisa conversar – uma obviedade, já que a finalidade daquela janta seria, por fim, me colocar a ouvir seus desabafos; ainda assim, o seu desconforto ao entrar na minha casa é visível. Algo dentro dela luta para sair, como uma fera enjaulada que sente pela primeira vez, dentro dos dias de cativeiro, o cheiro de carne.

Sirvo duas taças de vinho, e ela começa a falar. É um dia difícil e uma grande parcela de mim optaria por passar a noite atirada no sofá, assistindo Mad Men e bebendo um vinho mais suave; mas M. tem essa coisa de me escolher como ouvinte, mesmo eu sendo essa amiga horrível que está sempre com cara de sono de quem deu um plantão no dia anterior. Ouço com atenção e repito os conselhos de nosso último encontro. Eles falham, mais uma vez.

M. está desiludida com os homens, e um após o outro, eles escolhem abandoná-la. Não consigo entender ao certo o porquê, sendo que ela é mulher de inúmeros atributos, mas aí lembro dos tempos em que eu vagava por entre aplicativos e encontros casuais, e para ser sincera, nada parecia fazer sentido naqueles tempos de desencontro. No mesmo instante, ela se levanta para buscar algo na minha cozinha, e então encaro o meu varal do outro lado do recinto, vendo tuas roupas penduradas.

Como é que minha vida mudou tanto nos últimos tempos? Se alguém me dissesse, 7 meses atrás, que hoje eu teria roupas alheias penduradas no meu varal, eu não acreditaria nem por um instante – ou então me assustaria e tomaria as medidas cabíveis para que isso jamais acontecesse.

Felizmente, a vida aconteceu – e enquanto M. discorria sobre seus 5 encontros dos últimos 15 dias, classificando os homens como canalhas, patifes ou desprovidos de personalidade, como quem luta para escolher uma cor para pintar as paredes, eu egoistamente te abençoei. Porque as mudanças na minha vida foram tão profundas, mas tão necessárias, que o turbilhão de emoções que eu vivi quando te conheci valeu a pena, do início ao fim.

Eu nunca achei que se apaixonar por alguém nos mudasse tanto. Eu passei tanto tempo preocupada em conhecer uma mulher após a outra e tentando apagar algum sentimento passado que me esqueci da pureza e da simplicidade contidas em amar e confiar em alguém. Eram detalhes tão pequenos – tuas roupas no meu varal, tua jaqueta na minha cadeira, o carregador do teu celular na minha mesa – que traduziam algo tão imenso: eu havia deixado alguém entrar na minha vida, pela primeira vez em tantos anos, e a tua presença nas esquinas do meu cotidiano têm feito tudo valer a pena. Como quando você me mostrou aquela música, Anéis de Saturno, e eu conseguia estudar por horas a fio se colocasse ela para tocar.

M. foi embora, e eu deitei na minha cama e pensei em você. Aquele era um dos momentos mágicos em que percebemos como certas coisas na vida são extraordinárias. Eu nem conseguia processar inteiramente a imensidão da minha sorte em ter te encontrado um dia.

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