Sobre fantasmas e monstros

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Eu sempre soube que esse dia chegaria.

Desde que entrei no curso de Medicina, tive esse medo contido de ver algo que me deixasse muito triste – e embora tenha presenciado situações de desamparo e violência em adultos, nunca havia visto isso com uma criança. Sempre soube que isso me afetaria em cheio, por inúmeros motivos, e talvez por isso tenha começado essa fase pediátrica com o coração pesado.

Este mês é o último em que terei qualquer ligação com a pediatria, e quanto mais o fim se aproximava, mais eu acreditava que nunca passaria por isso.

Os dias passaram, e se transformaram em semanas, que se transformaram em rotina. Acomodei-me nos corredores, nas rotinas do hospital, nos prontuários eletrônicos. Baixei a guarda, em todos os sentidos, e algo em mim confiou que eu terminaria esse período profissional com meu coração incólume.

Hoje à tarde, entreouvi um diálogo entre duas médicas. Falavam de uma paciente que havia passado pela emergência há algum tempo, e que havia sido internada no hospital, aos cuidados de outra equipe. Nesta internação, foi solicitada uma avaliação psicológica, e o relato da psicóloga, em extenso e por escrito no prontuário, havia chocado a todos. “É a coisa mais triste que alguém pode ler”, uma disse à outra.

Algo me alarmou, e segui o dia como se nada tivesse acontecido. Um gosto amargo tomou conta da minha boca quando a tal paciente voltou aos nossos cuidados, e tive de ler toda a história em um espesso prontuário com avaliações psicológicas, sociais e médicas diversas.

Eram abas brancas, roxas e amarelas, uma caixa de pandora aberta em duas semanas de internação. O prontuário me assustava como uma cobra encolhida no canto do meu quarto, e demorei um tempo até admitir para mim mesma que eu precisava encarar aquilo de frente.

Sentei no canto daquela sala barulhenta, onde dezenas de médicos se aboletavam para discutir os pacientes, e respirei fundo.

Li as avaliações do início ao fim, e um abismo se abriu na minha alma. Não era a coisa mais triste que eu havia lido, nem de longe, e não era tristeza ou indignação o que se apoderava de mim. Segurei um choro de dias inteiros dentro do meu peito, não pelo desprezo que sentia pela família daquela criança tão ignorada, mas porque vivenciava uma identificação tão nítida que chegava a me doer.

Excertos daquele prontuário pareciam ter saído da minha história. Lembrei de quando eu tinha quatro, cinco, seis anos, e sentia as mesmas coisas; inventava as mesmas saídas mágicas para os que me machucaram. Enxergava monstros e bruxas onde havia adultos, exatamente como aquela menina fazia: a mãe era uma bruxa, o pai era um monstro, e a tia, um fantasma. Ela não tinha medo de adultos, disse à psicóloga, e sim dessas criaturas. Talvez esses delírios a protegessem da realidade tão cruel: a de acordar e ver os mesmos monstros que a destruíram durante a noite dividindo a mesma casa e cumprindo papel de protetores durante o dia. Ela contava com um herói que de vez em quando a salvava dos piores momentos que passava, e algo em mim me diz que esse herói nem sequer exista (assim como os meus nunca existiram). Talvez esse herói, diferente dos monstros e fantasmas, seja apenas um sonho.

As crianças esperam tão pouco dos adultos, não é mesmo? Para uma menina de seis anos, um herói não precisa voar, ter visão de raio-X ou ter um avião invisível: ele só precisa salvá-la de adultos que deixaram de ser humanos.

Li aquelas palavras, tão bem escritas por uma psicóloga cuidadosa, e pensei em todos os heróis que não me apareceram. Lembrei dos anos em que esperei que alguém me salvasse ou simplesmente estivesse ali comigo, e de como a ausência de tal herói me fez criar crônicas particulares que nunca existiram.

Saí por dois minutos para tomar um ar num corredor desconhecido da emergência pediátrica. Naquele escuro, entre um armário e uma porta, peguei meu celular e procurei alguém para mandar uma mensagem desesperada – como a gente faz quando descobre que está apaixonada por alguém, bombou numa prova ou precisa de uma cerveja. Deslizei a minha lista de contatos, e para minha total surpresa e desespero, não encontrei ninguém. Estarrecida, percebi o ambiente que havia criado à minha volta nos últimos sete anos: não havia ninguém – absolutamente ninguém – do meu convívio nesta cidade que sequer soubesse o que havia se passado comigo. Não havia um amigo com quem eu pudesse conversar, numa noite fresca de terça-feira, sem precisar contar a história da minha vida (e, com isso, eu incorria no risco de chocar alguém completamente – um paradigma do qual eu já havia me cansado).

As duas horas seguintes se arrastaram pesadas, com pacientes graves, discussões desconfortáveis na tal sala barulhenta e minutos que não passavam. Voltei para casa, flutuando pelas ruas, e abracei agradecida minha cama na chegada.

Permiti-me chorar, e demorei um tempo até conseguir fazer com que aquele abismo se abrisse novamente.  Era um sentimento tão antigo o que eu sentia: na minha vida, ele era quase ancestral. Eu não conseguia captar sua origem, seu começo ou seu auge; eu só conseguia saber que aquele sentimento era perene. Esteve ali pela maior parte da minha vida. E, mais uma vez, eu havia acreditado que ele havia ido embora para sempre – só para me descobrir completamente errada instantes depois.

Recapitulei aquele dia sombrio, inevitável desde o princípio, e percebi que o que mais me doía não era o fato de ser lembrada, de tempos em tempos, daquilo pelo que eu havia passado. Tampouco era a indignação que eu sentia com a violência e o descaso às crianças (algo com o qual eu havia me acostumado, feliz ou infelizmente, depois de algum tempo dentro da medicina). O que mais me doía, e que cansava cada músculo do meu corpo, era saber que embora tantas outras pessoas passem pelas mesmas coisas que eu, eu continuo inteiramente sozinha – e para a maioria lá fora, a história de pessoas como nós é algo completamente chocante e estrangeiro. Afinal de contas, é “a coisa mais triste que você poderia ler”.

 

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