Respostas

Teus olhos marejados de silêncio me encaram, e eles dizem mais do que livros inteiros. Sei que errei, e naquele momento constato que meus erros me perseguirão por muito tempo: enquanto eu esquecia teus pequenos deslizes em poucos minutos, tu te agarravas a meu grande erro de ontem. Tentei te explicar, mas me faltavam argumentos – no fim das contas, não pude fazer nada além de admitir minha culpa e amargar minhas fraquezas.

Meus olhos pediam o que eu poderia fazer para me redimir das minhas idiotices. Nesse mar de meias-palavras, das tuas brincadeiras que eu levo a sério, eu procurei me agarrar ao que ainda restava da minha vida antes de ti, e cometi erros impensáveis. Continuei a comer, amargando minhas decisões, quando disseste:

– Você nunca me conta nada. Eu quero saber quem é você.
– Nada? Eu te conto tudo.
– Eu sei quem você é, mas não sei quem você foi.

A veracidade daquelas palavras me acertou em cheio, me deixando com um gosto amargo na boca. Subi a rua com o peito sufocando de verdade e calor. Eram trinta e seis graus que pareciam setenta, e o dia estava longe de acabar.

Adentrei o hospital, as horas se condensando num plantão imenso e cheio de lágrimas e sangue. Meu chefe sumiu, e subitamente uma ala do hospital estava em minhas mãos, de uma maneira que não deveria estar. Aquilo me levou aos meus limites, e subitamente a minha mente saiu do comando: algo mais primitivo e mais íntimo controlava meus atos. Os pacientes se misturavam numa massa disforme de nomes e números de leitos, mas de alguma forma, tudo acabava chegando a seu devido lugar. Os exames se confundiam, e pouco a pouco, eu sentia como se estivesse dentro de um sonho estranho.

Por um momento, enquanto a tarde fervia a cidade inteira, sentei na cama do quarto de descanso e me imaginei te contando tudo, desde o começo: o que minha vida havia sido e o que eu havia passado, coisas que surpreendiam a todas as poucas pessoas que realmente me conheciam. Calculei palavras e gestos, pensei numa garrafa de vinho que eu tomaria sozinha enquanto te revelaria meu passado. Imaginei teus olhos cada vez maiores, o ar se tensionando como uma corda de violão prestes a romper, as minhas frases escorrendo inicialmente como uma garoa fina, e depois como um tsunami de chumbo líquido invadindo aquele ambiente. Eu permaneceria viva, pois aprendi a respirar em meio às ondas, mas por alguns instantes, tu te afogarias – e no fim das contas, eu te odiaria.

Eu te odiaria, porque te confessar minha vida seria trazer à tona a realidade que tanto me incomoda: nossas vidas são tão iguais, mas foram tão diferentes. Tu saberias que me dói te ver e constatar que tiveras os amigos que eu nunca tive, a família que eu nunca tive, a proteção que tanto me fez falta. Apesar de hoje serem meus amigos e minha família, a quem sou tão grata e que me trazem tantos bons momentos, guardo em mim esse segredo: uma parte de mim sempre se dói e se ressente.

Eu te odiaria pela tua surpresa, e pela forma com que minha realidade te soaria como um pesadelo. Eu te odiaria porque demorarias algumas semanas para digerir tudo, mas no fim das contas, aquilo não seria teu; não seria teu passado ou tuas lembranças. E eu me tornaria tão vulnerável que te deixar soaria como algo normal, uma precaução a ser tomada.

Minha realidade nos destruiria – na oitava hora de plantão, isso já era uma certeza.

Ainda assim, querias saber. E tens o direito, depois de tantas horas, dias e noites ao meu lado. Tens o direito, depois de ser a primeira pessoa a me respeitar de verdade.

Meu chefe acordou de um sono pesado que durou horas – durante as quais meu coração se encolheu num canto escuro.

– Tá meditando?
– Não – respondi.
– Tá encarando o espaço.

Voltei para o mundo real.

Outras horas passaram. Pacientes chegaram, más notícias se fizeram presentes e tempos depois deitei cansada na mesma cama, após secar as lágrimas de uma mãe com dúvidas. Agi instintivamente, e buscando consolo, olhei nossa polaroid que guardo dentro da capinha do celular. Sorri, por instantes esquecendo que havia passado tantas horas pensando em ti de um jeito tão pesado. Estamos tão felizes naquela foto, e vê-la me deixa tão tranquila, como saber que existe um porto seguro a que voltar.

Suspirei e percebi: não havia verdade que merecesse essa separação. Eu suportaria todas as consequências do meu silêncio, mas não nos atiraria no escuro e no esquecimento. Merecíamos mais do que palavras: merecíamos que eu deixasse meu passado para trás.

 

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