Passagem

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Alice pediu perdão a um deus em que não acreditava enquanto despejava a comida estragada no vaso sanitário. Pensou nas crianças na África, nas mães das favelas do Rio de Janeiro e nos mendigos da rua de casa, e o estômago embrulhou num ato reflexo. No entanto, ao mesmo tempo em que se sentia perpetrando um crime hediondo, algo dentro dela festejou aquele momento: ao menos a comida estragava mais rápido que seu espírito. Ao contemplar os restos e sentir o cheiro de podridão – tão semelhante ao cheiro adocicado dos mortos do IML, ou era a sua memória quebrada demais? – sentia que a destruição que se estabelecia dentro dela não era uma idiossincrasia, e sim um reflexo do que acontecia no mundo. Se tudo eventualmente apodrecia, a decomposição da sua alma não era algo a ser criticado.

Sentou no chão do banheiro, exausta de tantas reflexões naquela hora do crepúsculo, e mirou os últimos raios de sol banhando os azulejos. Concluiu que devia repousar naquele lugar mais vezes: no espaço estreito entre as paredes espessas, não se sentia tão sozinha. A combinação aromática nauseante de decomposição, perfume e enxaguante bucal começou a perturbá-la, e naquela onda de irritação, lembrou-se da cena mais dolorosa do dia: um jovem casal, claramente pobre, sorrindo de mãos dadas pela Rua da Praia. Quão felizes seriam se morassem naquele apartamento e tivessem aquela mesma carreira, o mesmo carro, os mesmos carimbos do seu passaporte? A mulher – menina, não devia ter mais de dezesseis – exibia uma grande barriga e sorria como Alice não sorria há duas vidas inteiras. Como podia ser tão feliz, naquela miséria, com um destino tão sombrio? Alice estava convicta de que dentro de alguns meses aquela menina estaria em prantos na sua casa, com um bebê nos braços, esperando por um homem que jamais voltaria. Como é que alguém penetra na vida de outra pessoa e deixa algo indelével – um filho, uma miríade de memórias coloridas, um grande amor, não importa – e depois revela estar ali somente de passagem? Como é que se muda a vida de alguém para sempre e depois se vai embora?

Na escuridão sepulcral que já se estabelecia, Alice chorou, pela primeira vez em semanas, esperando que as lágrimas e os soluços trouxessem uma resposta ou uma solução. Mas como todos os seres humanos antes e depois dela, não teve sucesso. Gritou, contida pelas paredes que a cercavam, e quando se descobriu exausta de tanto pranto, perguntou ao mesmo deus se ela voltaria. O cheiro doce da morte deu a resposta.

 

2 comentários Adicione o seu

  1. Estou tentando descrever a sensação de estranheza que teu texto me proporcionou, mas as palavras se tornaram inócuas. Um misto de emoções que não se descreve, apenas se sente.
    Meu muito obrigada, tens aqui uma fã!

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    1. muito obrigada! adorei teu comentário. fico feliz que minhas palavras tenham despertado tais emoções em ti. volte sempre 🙂

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