Solidão

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A melancolia penetra nos meus poros e inunda o meu sangue. Ela é quase visível: uma substância nem azul e nem cinza, uma cor estranha como aquela que fica nos pincéis de aquarela quando muitas cores se misturam. Tento respirar fundo, mas nem todo o oxigênio do mundo vai satisfazer os meus pulmões. Falta alguma coisa, e não sei precisar o quê: não sei sequer dizer se é uma pessoa, uma comida, um abraço ou uma música. Penso em todas as possibilidades, mas não encontro nenhuma. Vasculho meu coração em busca de desejos ou angústias mal resolvidas – nós que talvez expliquem essa idiossincrasia – mas nada encontro. A bem da verdade, a esta altura dos sentimentos, eu estaria infeliz aqui ou em Viena, com uma taça de vinho e um pedaço de bolo de chocolate.

Deito no sofá e lembro das palavras de um senhor que detesto. Eu tenho uma mania estranha: leio as opiniões políticas de todos os extremos. Gosto de ler opiniões completamente contrárias às minhas, pra ver se estou perdendo alguma coisa muito óbvia. Certa feita, numa noite entediante, eu corria os olhos pela página de facebook de um velho senhor que nunca gostei, portador de palavras afiadas e opiniões marcantes, defensor dos famigerados “moral e bons costumes”, quando li algo que me deixou inquieta para todo o sempre: ele dizia que se você se sentia mal sem saber o porquê, é porque você não se conhece nem um pouco. Aquilo me atingiu como uma flecha: eu gostaria de dizer que momentos como este são raros, mas eles não o são. Nunca o foram. Na verdade, costumavam ser muito mais frequentes do que atualmente, mas volta e meia uma melancolia densa me aprisiona dentro do meu corpo e eu não consigo fazer nada além de ficar parada, sentindo minha alma ser devorada por ratos invisíveis.

Os dias se misturam, aglomerando-se numa massa disforme. Os pacientes parecem ser os mesmos, os corredores do hospital são subitamente estreitos e escuros. Existe alguma coisa pressionando meus dedos, me impedindo de caminhar em frente, mas não consigo ouvir os gritos que se perfazem dentro de mim. É como se eu fosse uma estrangeira para mim mesma.

O que mais me dói é que, durante toda a minha vida, eu atribuí tais sentimentos à solidão. Na minha mente, tudo isso se resolveria quando me apaixonasse por alguém que também gostasse de mim, ou então quando eu pudesse passar um bom tempo ao lado da minha família. Aos poucos eu descubro que isso não é verdade. Nem os teus braços e beijos me fariam me sentir melhor. Nem as tuas palavras doces, tua boa comida ou uma massagem nas minhas costas. Hoje, a minha solidão não é a ausência de pessoas à minha volta, e sim a ausência de alma dentro de mim.

Preciso me reencontrar, mas não sei onde procurar.

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