Abismos

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O ano virou e eu resolvi me apaixonar – me entregar de verdade daquela forma que a gente sempre se impede de fazer. Depois de tudo que você fez por mim, e me levar para uma cidade estranha foi só uma dessas coisas, entregar meu coração de bandeja pareceu natural.

Ao longo do verão, os dias vieram como dádivas. Apesar dos meus plantões, da lista dos pacientes, do calor infernal da cidade, e sobretudo do meu medo de amar, nossas horas eram um reduto de paz e felicidade.

Comecei a acreditar que dessa vez seria diferente. Que no fim das contas, depois de tantos anos de desencontros, eu havia tirado a sorte grande. Que depois de tanta dor e solidão, os dias de escuridão haviam terminado, e enfim teria início uma temporada de amor, paixão e paz. Eu consegui enxergar teu amor nos teus gestos, no teu olhar prlas manhãs, nos teus atos.

Os dias passaram, e se seguiu mais uma noite numa mesa de bar, e eu encarava tua imutável expressão de prazer ao dar o primeiro gole num copo de cerveja gelada. Teus amigos de infância chegaram, aos montes, e decidi me entregar aos embalos daquela noite. Meus sentidos nublavam a cada copo, as tensões da primeira semana do ano se resolvendo, e então relembraste os bons momentos de infância.

Teus amigos tinham centenas de histórias de jantas, festas, risos e mulheres. Memórias de noites felizes, uma família unida, bebidas, danças e bons momentos. Relembravam momentos vividos aos quatorze, quinze anos.

Meu coração se encolhia a cada palavra como uma planta morta. Foi então que eu percebi por que não me envolvi com ninguém nos últimos cinco anos: encontrei pessoas interessantes, que eu seria capaz de amar e me apaixonar, mas me falta alguém que seja capaz de me entender. E no meio daquelas lembranças eu percebi que você poderia gostar de mim, me amar e se apaixonar por mim. No entanto, apesar de tentar, você jamais me entenderia. Cada lembrança tua era um lembrete doloroso do que me fez falta na minha adolescência. Tentei comparar nossas vidas, tão comuns no presente, mas separadas por quinze abismos no passado, e não consegui.

Naquele instante eu soube que você jamais compreenderia. Você não sabe o que é ter a infância interrompida por algo que consegue, em poucos minutos, te destruir. Você não sabe o que é passar anos imersa em uma jaula de solidão e esquecimento, ou ver a tua família ser destruída aos poucos, até o instante em que não sobre nada além de escuridão nos olhos dos teus pais. Você não sabe o que era ser atirada à vida adulta aos onze anos. Da mesma forma, eu não sei o que é viver noites fluorescentes aos quinze anos. Eu nunca soube.

Suportei aquelas horas sentindo meus monstros sobrevoarem a imensidão da minha alma. Te levei para casa, mais uma vez sentindo teu sono pesado no meu colo dentro de um uber, e me senti satisfeita em saber que não percebeste minha dor.

Apesar do meu cansaço, tardei a adormecer. Esperei o teu sono a fim de me desvencilhar do teu abraço, subitamente tão indesejado, e o espaço entre nós na minha cama era o de duas vidas inteiras.

1 comentário Adicione o seu

  1. Denso! Tenso! Triste…

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