Amores não-declarados

em

São 16:35 de uma sexta-feira e eu ainda não consegui sair da cama; a agonia pressiona meu peito e trava minhas pernas. Eu quero voltar para onde eu estava vinte e quatro horas atrás: arrumando a casa, naquelas confusões que se instalam no fim dos semestres, com a comida pré-preparada na geladeira, ao lado do vinho que eu guardei por meses para uma ocasião especial. Peço aos céus que me façam retornar para a minha cama, onde eu tentava cochilar esperando você chegar, mas meu corpo já estava inquieto demais, desejando tua pele e tuas palavras.

Quero voltar para quando tudo estava bem, quando você chegou e teu sangue manchou meu banheiro e cogitamos te levar para o Pronto-Socorro, mas enfim chegamos à conclusão de que o melhor era ficarmos ali, na minha cama, onde passamos tantas horas nos últimos meses, compartilhando sonhos em silêncio. Desejo, mais do que tudo, retornar para quando a janta que planejei por três dias estava quase pronta, e aí subitamente nossa música tocou. Você me abraçou e tentamos dançar, mas só conseguimos suspirar em uníssono. Me leva de volta para quando jantávamos e você disse, tantas vezes, que a comida estava maravilhosa (e eu sorria internamente, porque não comia salmão há meio ano, e esse prato me faz lembrar do meu pai de um jeito muito bom). E aí você pegou na minha mão e deitamos no sofá, sentindo a alegria após uma demonstração de afeto e uma refeição feita com amor e afinco. Quero voltar para esse exato instante e te impedir de dar aquela resposta maldita. Quero voltar atrás e fazer com que eu não derrube nenhuma lágrima no que era para ser uma das melhores noites do ano, que marcava o fim de um dos piores ciclos da minha vida profissional.

Mas não existem máquinas do tempo, e tuas palavras me fizeram chorar, mesmo que você não tivesse isso em mente. Eu queria tanto que naquele momento você me abraçasse e dissesse o que eu queria ouvir, mas não são assim que as coisas funcionam. Eu tinha brilhado e sorrido tanto aquela noite, e eu estava tão fiel à minha esperança de que aquela noite acabaria bem (como todas as noites contigo antes dessa) que esqueci que o roteirista da minha vida tem influências de Tarantino e Lars Von Trier. Você não entendia nada, como você nunca entende, e eu chorei sozinha. Eu nunca me senti tão sozinha do que quando eu estava deitada naquele sofá, ao teu lado, e subitamente eu não desejava mais teus braços: eles me soavam estranhos, mornos, como braços estranhos encostando nos nossos num ônibus lotado. Tuas lágrimas me soaram falsas e estrangeiras, e eu me afundei no oceano da minha mente.

Eu tentei tanto te explicar o que eu sentia, mas sei que no fim das contas você não entendeu nada. Chorei tantas vezes nessas últimas 24 horas, não pelas tuas palavras, mas sim pela ausência daquilo que eu queria que você dissesse. O que me dói não é a brincadeira idiota num momento inapropriado, e sim o fato de que você não sabe quem eu sou. Você não sabe o quanto eu sou sensível, o quanto eu te quero e o quanto eu desejo que isso dê certo. Ou desejava, e essa dúvida tem assombrado minhas horas, porque gostar de ti e querer ficar contigo já são destinos distintos no meu coração.

Você foi embora com a camiseta manchada pelas minhas lágrimas, e agora eu te pergunto: o que eu faço com isso? O que eu faço com as frutas que você deixou na minha estante e a cerveja artesanal que guardamos por uma semana e que parece um elefante dentro da minha geladeira? O que eu faço com a travessa de setenta anos de idade que eu usei pela primeira vez ontem, e que agora me encara ironicamente da pilha de louças sujas que me remetem a ti? O que eu faço com a ausência do carregador do teu celular na minha tomada, pela primeira vez em semanas? O que eu faço com os lençóis manchados de nós, com as playlists que elaborei para uma noite que nunca aconteceu, com os restos da melhor refeição que eu já preparei? O que eu faço com essa angústia e essa vontade de chorar que não me abandona?

Como é que eu faço para te abandonar, depois de tu ter dito tantas vezes que gosta de mim mais do que eu sequer imagino? Como é que eu posso esquecer depois das tuas palavras ditas inconscientemente dentro de um Uber às cinco da manhã?

O que eu faço com as memórias das tuas palavras, vivas na minha memória, e com a verdade dura e afiada que atingiu meu peito: eu não estou te perdendo porque não me queres, e sim porque nunca consegui te dizer francamente o quanto eu te quis? Não foi o meu amor em excesso que nos separou, como eu sempre pensei e escrevi por aqui, mas sim as minhas tentativas de sufocar e silenciar meus sentimentos – ciclos que rompi te escrevendo uma carta de natal que te chegou tarde demais. Eu me pergunto se você abriu meu presente, se gostou dele, o que você sentiu. Eu estava tão cansada segunda passada, depois da noite que passamos em claro ouvindo meus vizinhos brigarem insanamente, mas ainda assim me pareceu a coisa certa ir até a loja do bairro vizinho te comprar alguma coisa que lembrasse nossas vitórias nas últimas semanas. Me pareceu certo, acima de todas as coisas, te escrever uma carta de duas páginas com uma caneta que bem poderia conter meu sangue como tinta, e enfim expressar tudo (ou quase tudo) que sinto por ti. O que você fez com o envelope cuja cor eu escolhi com tanta consciência? O que você fez com meu presente, com minhas palavras, com as coisas que eu sinto por ti? Algo me diz, no fundo da minha memória, que você não abriu aquele pacote.

Me diz, meu bem, por favor, uma vez na vida, me dê palavras. Me diz: o que eu faço com esse sentimento todo, que eu tentei tanto podar pelos últimos três meses, e que agora se transformou num monstro contraditório? O que eu faço com a conclusão à qual cheguei ontem: você não faz e nunca fez e nunca fará por merecer as coisas que eu faço por você, mas ainda assim, eu gosto tanto de você? O que eu faço com o livro que você me emprestou, e com os brincos que esqueci na tua casa? Com a nossa foto, pendurada no meu mural, depois do melhor baile das nossas vidas semana passada? O que eu faço com tudo isso?

E, sobretudo: o que eu faço com esse silêncio?
O que eu faço com o espaço que você deixou na minha vida?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s