Viúva Negra

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A noite cai, lilás, e abraço o parapeito da janela. É um crepúsculo quente de novembro, e te ouço respirar no sofá ao lado. Se não estivesses aqui, tenho certeza, eu estaria escrevendo – parindo qualquer texto dramático que drenaria os abscessos que os últimos acontecimentos criaram. Quando se sobrevive a dias como este, destilar a dor em palavras é a única coisa que me resta fazer.

Sei que meu rosto mudo não diz nada – ao longo dos anos, eu empilhei milhares de tijolos em volta do meu coração para segurar a minha dor. Eles abafam os gritos da minha alma, e pouco a pouco, nem eu consigo mais ouvir alguma coisa. No entanto, quando meu despertar rompe a madrugada e acordo angustiada, na total vulnerabilidade que só se estabelece entre a vigília e o sono, minhas defesas caem. É só em momentos como este que me permito sentir – e, mais do que sentir, permito-me sonhar.

Sonho com uma máquina do tempo que me faça voltar dezessete anos. Quero entrar naquele quarto abafado uma última vez, e olhar fundo nos olhos daqueles que me destruíram, para que eu nunca esquecesse seus rostos. Em meu delírio, não é medo que corre em minhas artérias, e sim ódio. Levanto meu corpo e o transformo em violência, devolvendo com a morte a destruição que me foi imposta. Nos meus desejos mais soturnos, eu os mato com as mãos, como uma viúva negra que consome o outro após a cópula. Imagino minhas unhas afiadas, minhas mãos enormes, o sangue esguichando e escorrendo pelos meus dedos. Naquele sangue, eu tenho certeza, o meu espírito se purificaria. Eu renasceria única, jamais incólume – desta vez, eu já não sonho em me salvar – mas ao menos seria vingada a minha dor. Eu ressurgiria dos corpos daqueles que hoje ainda sufocam a minha alma, ainda que hoje nem o saibam.

As horas passam e eventualmente tu te remexes na cama. Volto ao mundo real, um mundo em que o sangue derramado naquele quarto foi meu. Uma realidade em que minha resposta não foi a violência, e sim a solidão e o silêncio – duas coisas que se uniram e se tornaram o câncer da minha vida, de tantas maneiras possíveis.

Dizes que estou quieta demais, e tens razão. Falas qualquer coisa sobre eu poder confiar em ti, que estás aqui para essas coisas também – e eu sei que posso, mas me falta coragem e força. Permaneço calada, como sempre estive desde que esta noite maldita começou, os tijolos abafando todos os meus gritos internos. Ainda que eu quisesse, jamais conseguiria te dizer nada. É tudo tão calmo e quieto no oceano profundo do meu esquecimento, as memórias seletivas convenientemente guardadas em cofres de chumbo.

Adormeço acalentando um sonho possível: que eles morram chorando, em meio a gritos de angústia, sejam eles quem forem. Não lembro de seus rostos e nunca descobri seus nomes. Mas minha pele vai lembrar para sempre de seus corpos.

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