Atlas

Em uma dessas raras manhãs de primavera que despertam secas, lembrei de você. Talvez fosse por ter pintado meu cabelo na noite anterior, e aquele vermelho vivo sempre me lembra de uma tarde gorda de quarta-feira, gravada em minha memória através dos teus cabelos iluminados pelo sol hediondo que brotava da minha persiana quebrada. De qualquer forma, não era nos cabelos ou nas tardes que eu pensava, mas sim nas tuas palavras: há corredores escuros que preciso percorrer nesta vida para os quais tu eras a única luz.

Cinco anos depois, preciso admitir que sinto falta das tuas palavras nestes momentos soturnos, mas talvez hoje nem tu saberias o que me dizer. Percorri as ruas do centro da cidade recordando os pesadelos da noite anterior; eles significavam, entre tantas coisas, que meus fantasmas continuavam vivos. Eu poderia ignorar, silenciar ou esquecer, mas aquele monstro permanecia vivo como nunca. Suspirei, encarando a realidade imutável. Tantos anos se passavam, tantas pessoas transitavam pela minha vida, e meu escafandro continuava o mesmo.

Era cedo demais para chegar ao meu destino. Imersa em pensamentos, parei numa praça para organizar minha cabeça. Lembrei da noite anterior, e um sentimento de dor se alastrou pelo meu corpo: eu não devia ter atendido o telefone. Recordei a voz dele enrolada, claramente embalada por duas doses de whisky. Revivi as palavras afiadas, as lembranças dolorosas que ele arrancara sem piedade – e sem se aperceber da gravidade da situação e da fragilidade de minhas memórias. Ninguém sequer imagina, mas eu passo grande parte do meu tempo tentando equilibrar o meu passado, como um castelo intrincado de cartas sempre prestes a desabar. Ontem, uma janela foi aberta, e o vento soprou forte. Uma vida inteira juntos, e ele não entendia a minha dor: mais do que conversar, chorar e escrever, eu precisava esquecer, e torna-se impossível esquecer mortos que são repetidamente exumados, ao longo dos anos e das conversas. Eu havia buscado, em mim, a coragem para esquecer o meu passado, mas ele não queria me deixar. Busquei as lágrimas no fundo da minha alma e nas paredes carregadas de limo do meu coração e tentei chorar, mas não consegui. Cada vez que eu relembro essas memórias, algo dentro de mim morre.

Uma senhora sentou ao meu lado. As pombas revoavam, a cidade agitada borbulhando. Nas esquinas dos meus olhos, percebi que ela usava branco. Fiz questão de não encará-la, evitando qualquer cumprimento – não era o dia nem o local adequado para fazer novas amizades. Ela parecia alheia ao caos, preocupada com meu olhar.

– Bom dia.
– Bom dia – respondi, e o cansaço da minha voz me assustou.
– Menina… você está bem?

Encarei profundamente aqueles olhos azuis, calejados pelo tempo. Eles me lembravam de alguém que havia marcado muito na minha vida, mas que de alguma forma não estava mais ali. Concluí que nem a cristalina experiência naquele olhar me fornecia algum consolo.

– Logo o dia termina, e então eu vou beber pra esquecer isso tudo – menti. A parte da bebida era verdade, mas o dia seria longo, e esquecer a discussão da noite anterior era uma ambição alta demais, um desejo que beirava o impossível.

– Você sabe quem eu sou?

Eu não fazia ideia, e para ser sincera, não me interessava. Engoli em seco e voltei meu olhar para a minha frente, esperando que tal movimento fosse lido por ela como uma recusa a qualquer conversa. Aquele era um daqueles dias em que eu permanecia submersa no oceano da minha alma, tentando não submergir nas minhas próprias memórias. Não me interessavam outras dores, outras almas: eu só queria terminar aquele dia sem me afogar.

– Você sabe quem eu sou? – ela repetiu. Eu fingi não ouvir.

Suspirei e mirei o chão, amargando a decisão de me sentar naquele banco. Não queria sequer conversar comigo mesma, quiçá uma completa estranha.

– Sabe de uma coisa… não importa – ela disse. – Eu só queria te dizer, menina, que seguro a tua dor pra ti. Você parece estar tendo um dia tão difícil. Tá precisando de alguém.

Demos as mãos, como se nos conhecêssemos há anos, e assistimos a cidade acordar. De alguma forma, por algum motivo complexo demais para qualquer mente humana compreender, meus ombros se sentiam mais leves. Esbocei um sorriso, na certeza de que aquele dia, no final das contas, não seria tão longo assim.

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