Salvação

em

As manhãs de domingo sempre me caíram dolorosas, mas esta teve uma pincelada a mais de angústia. Entrei em casa e ela pediu que eu te acordasse; mergulhei nos teus lençóis e te abracei: só queria dizer adeus. Em cada despedida nossa, minha alma submerge num pântano de dor e incerteza, e hoje não seria diferente. Senti teu corpo na cama, agora tão grande, outrora tão pequeno e frágil. Não importa o quanto o tempo passasse: aos meus olhos, tu sempre serias aquele menino de grandes olhos azuis e sorriso fácil.

Meu abraço te acordou. Atordoado, tu olhaste em volta, sem saber identificar de quem eram aqueles braços. Quando teus olhos encontraram os meus, tu me abraçaste mais forte. Aquilo me garantiu que o teu amor permanecia vivo. Eu tive tanto medo, e tu nem sabes, de que um dia tu irias me esquecer. De que um dia minhas palavras, meus gestos e meus olhos caíssem no vazio da tua memória. De que meu abraço soasse estrangeiro, como quando cumprimentamos alguém e as almas não se reconhecem mais.

– Você vai ficar aqui?
– Não, só vim para me despedir. Já estão vindo me buscar.

Fizeste um som triste e permanecemos abraçados. Eu queria dizer tanta coisa, mas ainda não existem palavras capazes de traduzir meus sentimentos. Só conseguia te olhar e lamentar por aquilo tudo: a distância, a dor, a casa que te cercava. Anos atrás eu pensei que no futuro tudo seria diferente, que as coisas se resolveriam, que as circunstâncias voltariam ao seu devido lugar. Eram esperanças vazias, pensamentos que me acalentavam nas noites mais sombrias, e acho que de alguma forma eu sempre soube que tais sonhos jamais se realizariam.

Agora, passados os anos, tudo o que me restava fazer era te segurar nos meus braços e rezar. Rezar a quem? Beira o impossível acreditar em qualquer coisa boa, depois de tudo o que te aconteceu. Como acreditar em qualquer deus, conhecendo o teu sofrimento? Minha angústia dominou cada célula do meu corpo, e te segurei mais forte. Desesperada, percebi que não tinha outra escolha. Rezei fervorosamente, em silêncio, suplicando para que teus ventos mudassem. Implorei pela tua segurança, por qualquer coisa que te salvasse.

Os barulhos da rua indicavam que meu tempo havia acabado. Antes que eu me desvencilhasse do teu abraço, teus olhos nublados de sono se abriram, e disseste, numa voz da cor da tua alma:

– Se cuida. Eu te amo.

Minhas lágrimas trancaram em algum lugar da minha garganta, e eu não soube dizer nada. Que nosso amor te salve, meu bem. Nele eu consigo acreditar.

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