Porto Seguro

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Teu constrangimento estava impresso nos teus olhos. Eu conseguia perceber enquanto entravas no meu apartamento e me abraçavas, emendando um beijo tímido num pedido de desculpas. Me desculpa, você disse, e me abraçou.

Fomos para a sala e sentamos no sofá. Eu sabia que o fato de meramente abrir a porta para ti era o suficiente para dizer, em letras garrafais espalhadas pelos meus braços, que eu te perdoava. Mas ainda assim, você falou e me deu explicações. Eu nunca te diria o quanto aquela noite de sexta foi dolorosa para mim. O quanto o teu ato falho, errado mas nada grave, significava na minha alma. Jamais te diria que passei aquela noite chorando, na cama, desesperada, segurando meu corpo rígido contra os lençóis para não fazer nenhuma besteira – porque tudo isso era meu. Era minha bagagem, meu passado, meus traumas. Teu erro foi somente o fósforo riscado contra meu barril de pólvora.

Eu me surpreendi com meus próprios sentimentos quando me pediste para deitar no teu peito. Achei que eles haviam sumido, se dissipado entre minhas lágrimas e os porres dos últimos vinte e cinco dias bebendo para esquecer outra pessoa, mas eu estava completamente enganada: pela primeira vez, eu me sentia bem, e não era porque tinha deixado de gostar de ti, e sim porque a dor que me impuseste fora o suficiente para domar meus sentimentos antes tão selvagens. Minha atração por ti era algo tão explosivo e indomável que iria eventualmente nos machucar, e talvez um deslize teu fosse o necessário para acalmar meu coração e torná-lo um pouco mais cauteloso, um tanto mais natural.

Não foi tão mágico quanto da primeira vez. Meus mitos sobre ti haviam se rompido; não eras mais a criatura perfeita e mítica que encontrei num ambulatório numa sexta de manhã. Fomos mais lentas, menos inflamáveis, não tão desesperadas – mas dessa vez, havia algo ali que antes era inexistente. Eu não me segurei em demonstrar meu carinho por ti nos meus atos mais pequenos. Não consegui conter algumas palavras que antes me assustariam, mas que agora pareciam incapazes de fazer mal a alguém. Elas escorreram da minha boca às duas da manhã, e tudo o que fiz foi atirar um remendo mal-feito para conter os danos.

Quando nos abraçamos, ao som da playlist que eu botei para tocar tão despretensiosamente (mas que na verdade tinha passado a última meia hora montando especialmente porque sabia que você estaria aqui), percebi que aquele era um caminho sem volta. Eu estava prestes a navegar em outros mares, contra todas as chances dos últimos dias. Fechei os olhos e pedi por sorte, pelo menos dessa vez.

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