Correnteza

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É mais uma noite de entorpecer-se. Em algumas horas desde que saí de casa, sinto meu corpo se amolecer, minha alma se perder e meu coração sublimar em meio à matéria. Preciso deixar de sentir, deixar de pensar, cessar o processo indevidamente caleidoscópico no qual minha mente entra e arrisca nunca deixar.

Tento negar, impiedosamente, os impulsos do meu coração. Isso se torna mais difícil com o passar das horas: o álcool abre portas da minha alma que, de outra maneira, estariam hermeticamente fechadas. Os sentimentos escorrem pelo meu peito, numa enchente vermelha que inunda a sala do apartamento de um amigo. Antes que eu perceba, começo a falar, e as palavras que saem de minha boca me surpreendem. Falo em paixão, em compromisso, em saudade. Falo em sentimentos que julgava não sentir – no entanto, estou tão entorpecida que não perceberia nada daquilo até a manhã seguinte.

Adormeço, em casa, sã e salva. As palavras de outros me embalam o sono. Acordo algumas horas depois, muito tempo antes do despertador, e percebo que fui seduzida pelo medo. Muito antes de ser conquistada por uma outra pessoa, foi o medo que fez com que eu me apaixonasse por ele mesmo, e que me invadiu de uma maneira que eu definitivamente não esperava.

O medo acelera meu coração, mas paralisa meus braços e pernas. Nubla meus pensamentos, mas bloqueia minhas ações. E então enxergo que quando temos medo de perder alguém – e esse medo é maior e mais preponderante do que qualquer outro sentimento – é porque no fundo sabemos que já perdemos essa pessoa. Eu já te perdi (a bem da verdade, eu nunca te tive), e tudo o que eu preciso é de um tempo para aceitar os fatos. Continuo me embriagando dos teus beijos enquanto meu corpo e mente aceitam, lentamente, que aquela noite será a última.

Só mais uma vez, eu digo a mim mesma, sem saber que cada noite ao teu lado não é uma despedida, e sim uma promessa cega do meu coração. Lentamente me enredo em teus beijos, teu corpo e tuas palavras, e me situo cada vez mais longe de mim mesma.

Meu destino está traçado: irei me perder no teu mar. Depois de tanto nadar contra a correnteza, meu desejo é fechar os olhos e deixar que tuas ondas me levem, ainda que eu saiba que, ao fim e ao cabo, elas irão me afogar.

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