Convite

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Eram dez e meia da noite de uma sexta-feira. A vida florescia na cidade baixa: os tons de voz mais altos, os passos mais lânguidos, pessoas chegando ou mudando de lugar. Saí do aniversário de uma amiga com o coração sob controle, confiante de que tua mensagem era um alarme falso. Um convite para uma cerveja pode ser, afinal de contas, apenas um convite para tomar uma cerveja.

Quanto te aproximastes, eu já sabia que estava sendo modesta demais. Teu olhar me dizia que naquela noite percorreríamos caminhos imprevisíveis, e teu toque ligeiro na minha cintura me fez ter certeza disso. Em alguns minutos, teu amigo tinha ido embora, e éramos apenas nós numa rua repleta de pessoas – mas que nos parecia deserta.

Compramos a cerveja, mas acabamos por nem tomá-la. Em alguns minutos, estávamos no meu corredor, tuas mãos ligeiras sobre meu corpo, teus beijos soturnos e intempestivos. Resolvi seguir teu fluxo, abençoando o teu fogo implacável: é uma raridade estar com alguém que sinta tanta força e vontade. Depois de dois dias de inferno, em que até minha própria saúde havia sido questionada, eu precisava de alguém que me fizesse esquecer de absolutamente tudo. Eu precisava, desesperadamente, de uma noite em que o passado e o futuro deixassem de existir, e tudo se concentrasse no momento presente.

Há tantos dias que conversava contigo, discretamente, plantando pequenas sementes que julgava já secas. Não conseguia acreditar que tu estavas ali, no meu sofá, no chão da minha sala, na minha cama. Uma, duas, três vezes. Tuas mãos, tua boca, teus dedos e teus gemidos que eu aprendia a desencadear, pouco a pouco, como se aquela noite tivesse se multiplicado em dias. Tua pele se grudava à minha com uma facilidade tão absurda que não conseguia acreditar que aquela havia sido a noite do nosso primeiro beijo.

Deixei minha mente ir embora, escorrendo pelos teus dedos, mergulhando na tua boca. Esqueci de tudo o que me afligia, me mastigava e me consumia. Só conseguia estar ali, naquele momento iluminado, que em algumas horas se tornaria uma memória – indelével, portanto. Eu vivia com tanta intensidade cada segundo que quase chegava atrasada ao momento seguinte. Meus olhos, minha pele e minha voz se concentravam naquele instante, naquele lugar. Há tanto tempo não me sentia tão plena que era como se eu estivesse matando as saudades de mim mesma.

Pela manhã, você foi embora, mas teu cheiro ainda ficou em mim. Mesmo após dois banhos, sinto o teu toque na minha pele, como se algo teu ainda estivesse aqui. Sinto que os caminhos da minha vida mudaram, como se algo tivesse se iluminado. Ainda é cedo para saber ao que viestes e o que te tornarás nos meus dias, mas ainda que tudo termine nesta única noite, o sentimento que me domina é o de gratidão. Obrigada pelo convite – e que muitas cervejas estejam por vir.

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