Deserto

Às vezes eu deito na cama, exausta, e sinto o peso de tudo o que vi naquele dia. Sinto nas costas o peso das coisas que li, as mensagens que recebi, os pacientes com quem conversei; o cansaço das redes sociais, os burburinhos, as ligações, os prontuários. Muitas palavras, muitas vozes; barulhos, telas e luzes demais.

Nos últimos dias, tenho dado uma chance a um desses aplicativos de encontro. Nunca fui partidária desses aplicativos, e acho essencial e insubstituível o olhar, o toque e o cheiro. Mas dadas as minhas recentes desilusões, resolvi recorrer a alternativas fáceis.

Esses dias têm sido cheios de tudo isso: mulheres, mensagens, conversas, palavras. De vez em quando, eles são pontuados por beijos e corpos insípidos. Não é culpa dessas mulheres que eu não sinta gosto algum em seus beijos, ou que minhas pupilas não dilatem ao ver seus corpos. Não é culpa delas minha demora em responder, ou meu quase aborrecimento ao receber uma mensagem me chamando para sair: a culpa é toda sua.

Depois de você, as outras são as outras. Depois de você, eu nunca mais senti sequer esperança ao marcar um encontro. Porque eu sei – veja bem, eu não acho, tampouco acredito; eu sei – que aquela mulher, quem quer que seja, jamais chegará aos teus pés. Ela pode ser o amor da vida de outra pessoa, mas certamente não da minha. Depois de você, eu fico esperando um milagre. Porque como poderia eu voltar feliz para casa, após passar uma noite insossa com conversas fiadas? Ninguém conversa como você, sorri ou canta como você. Ninguém me pergunta, entre mãos entrelaçadas, qual é a música que está tocando. Nenhuma delas – e por isso eu agradeço a Deus – usa teu perfume.

Que paradoxo angustiante este em que eu vivo: meus dias são rodeados por pessoas, mensagens e demonstrações de afeto, mas há anos não me sentia tão sozinha ou tão pouco amada. Há tempos não me sentia tão pouco atraente, tão feia, tão inapropriada. Eu posso estar aqui, com pessoas o suficiente para me fazer suspirar de alívio quando eu abro a porta do meu apartamento, ou então com convites suficientes para meio ano de encontros, mas nada disso basta: sem você, é como se eu estivesse sozinha no deserto.

1 comentário Adicione o seu

  1. Tiago Medina disse:

    Trilha sonora é o que não falta para este texto 🙂

    Curtido por 1 pessoa

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