Sobre dizer adeus

 

– As duas coisas de que mais gosto – disse D., enquanto saíamos do hospital em uma tarde chuvosa de sexta-feira – são as seguintes: apaixonar e desapaixonar.

Aquilo me pegou de surpresa; não julgava que D. fosse o tipo de homem que realmente gostasse de se apaixonar. Além disso, o que é desapaixonar? Antes que eu fizesse a pergunta, ele a respondeu:

– Adoro apaixonar porque é algo que me distrai. Tu sabes, eu detesto essa cidade – eu não sabia, mas agora conseguia ouvir o desprezo marcando suas palavras – e quando estou apaixonado, tudo fica suportável. E desapaixonar… sabe quando você percebe: “há duas semanas não penso naquela pessoa”? É algo tão bom…

Não tive opções além de concordar com D. É maravilhoso se desapaixonar. No entanto, aquela conversa parecia estar se referindo apenas aos romances mais superficiais que vivi na minha vida, e embora conseguisse reduzir a paixão à frequência com que pensava na outra pessoa, não conseguia fazer o mesmo com sentimentos mais genuínos.

A conversa com D. me deixou com uma dúvida silenciosa: se sabemos que não estamos mais apaixonados quando deixamos de pensar em alguém, como é possível saber que deixamos de amar alguém?

A noite caiu, e a dúvida esmagava meus sentimentos. Procurei sinais de que tinha deixado de amar as mulheres que me marcaram, e não consegui. A ausência delas na minha vida se explicava tão somente pelo fato de que elas decidiram se distanciar após o término de relacionamento, por rancores ou incapacidade de manter uma amizade com uma ex-namorada. Se dependesse de mim, eu ainda as teria na minha vida, de uma maneira ou de outra. Mas o que isso significava? O que isso dizia sobre mim?

No caminho para casa, comprei uma garrafa de vinho, e fiz uma janta simples enquanto meditava sobre a pergunta. Uma parte de mim gosta de pensar que meu desejo em manter amizades com ex-namoradas me torna uma pessoa nobre e desprovida de rancores, mas algo me diz que as coisas não são tão simples e belas assim. Três taças de vinho depois, precisei admitir: eu nunca soube dizer adeus.

Anos após optar pelo curso de Medicina, nunca consegui abandonar as alternativas (cursar Engenharia Civil ou Arquitetura). Embora eu ame incondicionalmente o que faço, por vezes me flagro pensando em como seria boa uma vida com menos responsabilidades, plantões e tarefas exaustivas. Da mesma forma, não consigo afastar de mim a ideia de que não aproveitei adequadamente minha estada no exterior, quando trabalhei entre a graduação e a residência. Não dei a devida atenção para as oportunidades que se estendiam para mim por lá, e voltei para casa sem um contato sequer para um possível emprego fora do Brasil. Ainda, arrependo-me por não ter valorizado o tempo que passava com meus familiares durante os anos em que morei com eles.

Na minha vida, sempre procuro seguir em frente, mas algo me prende no passado. Esse algo me faz visualizar milhares de universos alternativos, possibilidades distintas para a minha vida, todas convenientemente melhores em relação ao que vivo agora. Meu saudosismo pelas mulheres que amei não são resquícios de paixão ou amor mal-resolvido; são, tão somente, frestas por onde espio um futuro que poderia ser meu. Fantasio tudo o que poderíamos ter sido, os lugares para onde poderíamos ter viajado, os momentos que poderíamos ter partilhado.

Pensei seriamente sobre todas essas possibilidades. Pensei nos amores, nas viagens, no emprego no exterior. Pensei na minha família, no meu eu engenheira ou arquiteta. Não fantasiei ou enfeitei essas realidades; enfrentaria problemas e obstáculos em todas elas. Mudaria algumas coisas – apararia as arestas de algumas palavras, estaria mais presente nos momentos, daria mais valor às oportunidades. Mas, caso me fosse dada a chance de tomar outros caminhos, eu escolheria trilhar pelas mesmas estradas. De alguma forma, eu tenho certeza: estou caminhando rumo ao lugar onde quero estar, cada vez mais próxima de me tornar quem quero realmente ser.

Para chegar lá, é preciso, antes de tudo, saber dizer adeus.

2 comentários Adicione o seu

  1. Vanessa disse:

    Quando tu meio que escreve oq eu sinto e penso é quando mais quero te ler.

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