Fire Eater

Ouvi o escárnio líquido que escorria, feito ácido, da sua boca. Pensei em duas ou três respostas, e enquanto uma era agressiva demais, julguei as outras demasiado mansas. Optei pelo silêncio, esperei que ele fosse embora e respirei fundo. Nada me doía mais que a impotência que me obrigava a permanecer calada e imóvel, uma aliada da certeza de que teria que aguentar sua presença por mais dois anos inteiros.

Não bastavam os problemas familiares, não bastavam as desilusões profissionais e amorosas: quando entrei no hospital hoje, esperando exercer o que nasci para realizar, precisei ouvir deboches daqueles que deveriam estar me apoiando. Como permanecer seguindo em frente, dando meu melhor em meu trabalho, se aqueles ao meu redor tentam me puxar para baixo? Como manter o ânimo em meio a tudo, se todos os dias preciso fingir que não ouço piadas infames e cobranças descabidas?

Nos últimos anos, a vida me ensinou uma lição: algumas pessoas são tóxicas, e a presença delas em nossas vidas acaba contaminando todo o resto. Refiro-me a familiares, amigos, namorados ou colegas de trabalho, como no meu caso. A presença de pessoas como essas leva a sentimentos que ninguém deveria ser obrigado a sentir: insegurança, raiva, irritação, baixa auto-estima, and so on. Algumas dessas pessoas ainda conseguem nos responsabilizar por aqueles sentimentos, como se eles fossem nossa culpa e, também, o motivo pelo qual nos importunam tanto. Um círculo vicioso difícil de se quebrar.

Tenho pensado em realizar minhas vontades e armar um grande barraco, com direito a gritos e socos, mas sei que tudo isso me serviria, como nada no mundo, para me classificar como histérica e descontrolada. As investidas do inimigo são lentas, paulatinas, imperceptíveis a olhos e ouvidos alheios; se eu extravasasse minha cólera, os demais não entenderiam sequer o menor de meus motivos. Seria eu, ao fim e ao cabo, a residente histérica. Na tentativa de livrar-me de deboches, acabaria os atraindo para o meu colo, como se filhos meus fossem.

Sendo assim, respiro fundo, mais uma vez, e busco suporte naquilo que mais amo: minhas pacientes, um bom vinho e um bom filme. Em momentos como este, em que tudo se nubla, o melhor é permanecer onde estamos, evitando o risco de navegarmos na direção oposta de onde queremos chegar. Se todos os segmentos da minha vida estão incertos, talvez o melhor seja permanecer aqui mesmo. Enquanto não volto para casa, lembro e relembro as palavras de um poeta que um dia perambulou pelas mesmas ruas por onde ando hoje:

“Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!”

(Mário Quintana)

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