Silêncios Povoados

Era mais uma manhã cinza na capital, e por algum milagre, eu havia escapado da chuva ao me deslocar de casa para o hospital. As dezenas de vezes que acordei durante à noite por conta dos barulhos do temporal me levaram a uma anedonia matinal quase insuportável; quando terminei a terceira ecografia do dia, já sentia o peso dos céus de chumbo sobre os meus ombros. Senti que precisava de um amigo para conseguir sobreviver àquele dia.

Mandei uma mensagem para T. e esperei que ela respondesse, o que acontece com uma frequência errática. Alguns minutos depois, soube que ela também estava no hospital, e que estava tendo aulas no serviço onde realizo a residência. Por algum motivo, ainda não havíamos nos encontrado, e combinamos um encontro na saída do hospital.

Ainda era escuro às onze da manhã, o céu mais cinzento do que nunca. T. me viu, disse “oi”, e eu respondi. Prontamente, andamos em direção ao centro, e uma esparsa chuva começou a cair. Seu passo largo, aos poucos, transmutou-se nos meus passos curtos e incertos. Permanecemos unidas, a garoa umedecendo os cabelos e as lentes dos meus óculos. Ambas tínhamos guarda-chuvas, mas aquela chuva era algo que precisávamos sentir.

Eu conseguia perceber que havia alguma coisa acontecendo com T., algo que ela estava lentamente aceitando que havia dado errado. Eu tinha tanta coisa para lhe dizer, e queria tanto falar sobre minhas desilusões amorosas e profissionais (o caso da senhora X, por algum motivo, ainda está entalado na minha garganta, e me fez repensar toda essa ideia de trabalhar na atenção básica). Ainda assim, permanecemos caladas, e eu podia perceber que ela entendia. Ela entendia tudo o que estava acontecendo comigo, e eu compreendia que havia algo acontecendo com ela, algo que ela ainda não estava pronta para me dizer. Atravessamos a Rua da Praia em silêncio, os braços dados, o silêncio povoado por nossos pensamentos e sentimentos.

Penso que seja esta, justamente, a definição de amizade: trocar longos períodos de silêncio e não senti-los tensos ou desconfortáveis, mas sim habitados por compreensão e intimidade. Confessamos nossa indignação com a recente morte de uma médica em um assalto na cidade, nossa desilusão com diferentes mulheres e um sentimento mútuo de solidão e angústia, a ansiedade por respostas e novos caminhos. Confessamos que, apesar disso tudo, ainda estávamos gratas e esperançosas, mas em dias cinzentos como esse, às vezes é difícil enxergar o que há de bom. Fizemos isso sem trocar uma única palavra.

Quando chegamos em frente à casa de T., me despedi e ela me abraçou. Naquele longo abraço, ela me transmitiu algo que eu precisava muito sentir, e que nenhuma palavra conseguiria me fazer entender: eu não estava sozinha.

 

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