A falta de cor

Eram onze da manhã quando senhora X. entrou no consultório. Como de costume, apertei a sua mão, que estava fria e trêmula. Sra. X diz ter consultado o médico por um problema que havia visto no espelho.

Após alguns minutos de anamnese, pedi que tirasse a roupa e me mostrasse o tal problema. O consultório precário não dispõe de biombos ou uma sala separada para o exame físico; dessa forma, ela tirou as roupas na minha frente. Antes mesmo que ela removesse o sutiã, percebi uma lesão avermelhada no seio esquerdo.

A pele distendida em torno da lesão, resultado da infiltração tecidual, tornava quase certeiro o diagnóstico de câncer de mama. Suspirei, levei as mãos à paciente, tocando os seios que deveriam ter sido tocados por outro médico anos atrás. Como de costume, fui sincera, tomando o devido cuidado para que minha sinceridade não transformasse minhas palavras em navalhas.

Senti tanta dor ao solicitar um pedido de encaminhamento à sra. X. Ela esperaria meses por uma consulta com um ginecologista, que a avaliaria em cinco minutos e enviaria para outra fila, a da cirurgia. Se me pedissem para ser cruelmente honesta, eu diria a ela que ela estava prestes a enfrentar duas batalhas: a do câncer e a do nosso sistema público de saúde. Na verdade, ela já estava enfrentando ambas há muito tempo; aquela era uma lesão que poderia ter sido palpada por um médico há anos.

Lavei as mãos, e assim que sra. X saiu da sala, lavei meu rosto. Não sabia ao certo o que me levava a fazer esses plantões em um precário posto de saúde situado na cidade onde Judas perdeu a meia do pé esquerdo. Eu sempre achei que fosse, além do retorno financeiro (que não era muito, já que eu não tenho carro e preciso pagar pelo transporte até o local), algum tipo de gratificação. Na maioria das vezes, eu sentia que estava ajudando alguém, de verdade. Mas em dias como este, todas as falhas e erros do sistema de saúde caem no meu colo, e tudo o que eu posso fazer é preencher um papel: solicito encaminhamento para ginecologista. Carimbo. Assinatura. Mais alguma coisa, sra. X? Aqui está seu encaminhamento, por favor, não perca esse papel. Próximo paciente.

Não sei por quê – afinal de contas, essa é uma cena vivida diariamente por profissionais e estudantes de medicina; há sete anos que vejo centenas de pacientes como senhora X – mas aquela história ficou engasgada na minha garganta. Após aquela consulta, tudo o que eu fazia no meu dia tinha um tom de amargura e dor. Tudo me aborrecia, as pessoas pareciam separadas de mim como se eu estivesse num aquário e elas estivessem me observando; na minha cabeça, elas seriam incapazes de me entender.

Ao voltar para casa, após vinte e quatro horas de plantão, não consegui dormir no caminho. Fiquei me perguntando o que é que havia me tornado tão amarga. E na verdade, algo em mim diz que é a falta de compaixão.

A falta de compaixão dos nossos governantes por pacientes como senhora X. A falta de amor do seu marido, que nunca a alertou para que procurasse o médico; a própria falta de amor-próprio de senhora X me assustava. Não demorou muito para que eu ligasse os pontos e percebesse como faltava amor na minha vida.

Os pacientes, aos quais sempre me envolvo emocionalmente em algum grau, vêm e vão. Haverá muitas senhoras X na minha vida, assim como na vida de qualquer um que trabalhe no SUS. Não posso depender deles para sentir essa gratificação ou conforto: preciso poder contar com a minha vida pessoal. E talvez esteja aí, e não na consulta da senhora X, o cerne do meu problema.

Desde que suspeitou da minha homossexualidade, minha família tomou um certo distanciamento de mim. Não é que eu tenha sido deserdada ou excluída do círculo familiar, mas sou tratada como aquele parente distante, de quem pouco ou quase nada se pergunta, e menos ainda se quer saber. Um casal de amigos meus, católicos, com quatro filhos (uma família linda, onde eu sempre senti conforto em visitá-los e ficar com as crianças) tomaram um distanciamento radical. Por outro lado, eu não me sinto representada ou sequer bem-vinda nos círculos LGBT. Queria amizades que não girassem em torno desse tema ou se baseassem nessa única característica em comum.

Tudo isso tem sido inflamado pelo fato de que há pouco tempo resido sozinha. Não sei lidar com os silêncios, as refeições pausadas, a falta de barulho nos finais de semana. A televisão, ponto de encontro na casa de meus pais, hoje jaz no meio da sala, um elefante branco permanentemente desligado. Sempre falta algo na minha geladeira, e não sei precisar o quê: mesmo depois que volto com dezenas de sacolas do supermercado, não consigo encontrar consolo nos bolos feitos pela padaria ou os sucos de garrafa de plástico.

Quanto à minha vida amorosa, já deve ter ficado claro para os leitores desse blog que eu estou vivendo uma paixão impossível, um amor radioativo impossibilitado pela distância de meio Brasil e, devo aceitar, desejos completamente diferentes no que se refere ao futuro.

No entanto, a distância que mais me dói atualmente não é a distância física que me separa do alvo de minha paixão, ou a que separa minha casa da casa de meus pais, e sim aquela distância emocional de quem está no mesmo aposento que eu. Os silêncios sepulcrais nos almoços de família, a ausência de um convite desse casal de amigos, a mudez dos encontros com novos amigos, com quem acho tão difícil formar um laço. Não sei como dizer, o que dizer, como me portar. Permaneço à deriva de boas relações, amizades saudáveis e relacionamentos com algum potencial para dar certo.

Que novos tempos, mais coloridos, estejam por vir.

7 comentários Adicione o seu

  1. Gustavo Roubert disse:

    Que o calor de uma palavra poça aquecer um gesto e espantar o frio de um silêncio.

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    1. obrigada! 🙂

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  2. Entendo sua dor, quero dizer que não é só por causa de opção sexual que pessoas agem como você bem colocou. Basta para elas, e talvez para nós, serem contrariadas em suas preferências, conceitos, gostos, opiniões, etc.
    Seja qual for o caso a melhor resposta a dar e a o melhor conforto a sentir é o silêncio. Silêncio para reflexão e para não ser e fazer o mesmo.

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    1. Com certeza, não é só por isso. Muitas pessoas não sabem lidar com as diferenças :/

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  3. giicl disse:

    Adorei o texto

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    1. Obrigada! Volte sempre!

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