Pretérito Imperfeito

Não consigo dizer adeus.

Meus pés congelaram no asfalto, e não em repouso: minhas pernas estão presas à inércia que me impede de parar, dar meia-volta e dizer adeus. Não consigo fazê-lo, e não é pelo desejo de permanência, mas pela sede de voo. Caminho apressada e as pombas revoam, o cheiro de café e de cravo numa estação de trem desorganizada e fria. São vinte para as oito da manhã em Seattle, uma manhã gelada de Novembro que permite um vislumbre cinza do inverno que está por vir, como a crisálida de dias mais escuros e frios.

Não consigo parar. Preciso continuar caminhando, as pernas rígidas, os pés gelados, os ônibus e trens e cafés e tudo se condensa numa massa disforme e eu digo a mim mesma que estou fazendo aquilo de novo: estou bloqueando, ignorando, projetando, qualquer coisa parecida, qualquer mecanismo de defesa Freudiano que minha mente idolatra cegamente.

Da mesma forma que a manhã cinza é uma promessa de inverno, quero dar a mim mesma um vislumbre da realidade. Tento lembrar de tudo que estou deixando para trás, e sei que por essas coisas e outras mais, deveria sentir algo. Deveria estar chorando, gritando, deveria estar deitada no chão ou parada no asfalto, qualquer coisa, tanto faz, mas a verdade é que não deveria estar caminhando na direção contrária com o ritmo firme e o coração leve. Existe um motivo puramente racional para dar meia-volta e dizer: obrigada por estar ao meu lado por dois anos, ainda que durante a maior parte desse tempo eu quisesse estar sozinha (mas precisasse estar com alguém). Entretanto, em algum lugar do tempo essa necessidade se perdeu, e por isso eu continuo andando; como é inusitado sentir que o coração do outro sangra enquanto o nosso permanece ileso. Como é estranho estar nesta inércia, a de caminhar, deixar para trás, nunca mais voltar aos discos de folk, às manhãs de domingo ao som de Elis Regina, a um passeio no parque numa manhã quente de sábado, às noites de terça no Odeon, às noites de quinta na Lima e Silva, às noites de todos os dias sobre lençóis suados, os gemidos e as ausências, a presença indesejada em noites em que eu queria estar sozinha, mas nunca consegui, e ainda bem que não. Quero agradecer a ela por ter permanecido, tão intensa e tão vermelha, tão vermelha que me tornou azul.

Concluo: não são mecanismos de defesa; a ausência da minha dor é real; é porque não há pelo que doer.

Não consigo dizer adeus, e não é porque sinto demais: é porque sinto nada. Que morte triste a desse amor, que só ocorre no outro – e eu, pela primeira vez deste lado, encaro com estranheza minhas mãos e peito incólumes, mas talvez justamente por isso infelizes. Um coração ileso é um coração vazio. Quisera eu estar carregando a dor de um amor que morre… se está morrendo é porque viveu um dia, e isso seria um sinal de que em mim algo ainda floresce. Eu, que escolhi não sentir para me proteger, agora entendo a ingenuidade por trás de minhas escolhas: a ausência desse amor vai me doer para sempre. 

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