Sobre desejar o impossível

Tenho muitos textos escritos, mas não consigo imaginar nenhum deles como sendo o primeiro post deste blog.

(eu até poderia falar sobre como essa ideia maluca de ter um blog lésbico surgiu na manhã de uma segunda-feira, mas quem realmente se importa?)

 

Pois bem, vamos ao que interessa: desejar o impossível.

Desde adolescente, descobri que lésbicas, aparentemente, apaixonam-se por “mulheres impossíveis” – isto é, aquelas que trazem algum impedimento para um futuro relacionamento. Aparentemente, adoramos nos apaixonar por alguém que mora longe, por uma mulher heterossexual, ou aquela lésbica que se encontra completamente aninhada no armário. Eu comecei minha vida lésbica com uma mulher relativamente assumida, que morava na mesma cidade que eu e estudava na mesma universidade – até aí, não tinha entendido o tal estereótipo.

Graças a todos os deuses de todas as mitologias, nunca me apaixonei por uma mulher heterossexual. Na verdade, a impossibilidade lésbica veio até mim na forma menos estereotipada possível – uma mulher que já havia se assumido há muito tempo, e nunca tinha sequer beijado um homem. F. era linda (céus, ela continua sendo!), e boa parte da cidade sabia que ela era uma baita de uma sapatão.

Meu gaydar nunca foi dos melhores, e lembro bem do primeiro momento em que vi F. Na época da faculdade, uma das minhas melhores amigas fazia grandes festas de aniversário no salão de festas do prédio. Metade do curso de medicina frequentava, e era realmente uma baita festa. Em um dado ponto da noite, um colega, de quem eu era amiga há anos, após meio baseado, sentou do meu lado e começou a falar sobre coisas que tínhamos em comum… e terminou a frase com “por que a gente não casa?” – vale lembrar que na época, eu ainda não tinha me assumido lésbica, embora o mundo inteiro (incluindo aí meus pais) sabiam que eu colava velcro há tempos.

Sem saber o que dizer para o amigo-colega, que já colocava a mão no meu joelho de uma forma super constrangedora, olhei para a entrada da festa e vi F. entrar. Imediatamente, olhei para ele e disse: “nossa, quem é aquela loira?” e fui lá bater um papo com a tal criatura.

Não consegui emendar duas frases, e não era por estar muito nervosa ou tímida: a conversa com F. simplesmente não fluía. Tomei aquilo como um indicativo de que a moça era na verdade heterossexual e estava incomodada com a minha conversa (afinal de contas, quem nunca?) e fui dançar.

Meus amigos mais chegados já perceberam minhas investidas, e disseram que até eles se confundiam com a sexualidade de F. Ninguém sabia ao certo se ela era hetero ou lésbica, e eu fiquei muito confusa. Confesso que até stalkeei o facebook da menina brevemente, mas não encontrei nada. Depois de muita cerveja e música ruim (só quem já compareceu a uma festa de medicina sabe o que eu quero dizer com “ruim”), fui dormir.

No dia seguinte, estava eu no meu sofá dando dedilhadas (no mau sentido – falo de swipes do tinder) quando encontro… F. Meu coração disparou. Foi o swipe, mas o match não veio. Fiquei dias esperando ele chegar, pulando a cada notificação do tinder no celular…

Às seis da manhã de uma segunda-feira, acordei e vi o tal do match. Minha felicidade foi enorme. Contaminei o hospital inteiro com os meus sorrisos. Papo vai, papo vem, combinei de sair com F.

Vocês, caros leitores, provavelmente não sabem quem eu sou, mas explico: já saí algumas vezes com homens, antes de descobrir minha natureza selvagem, e confesso que o encontro com F. foi ainda pior. Não encontrávamos assunto! Perguntei se a menina gostava de filmes, música, seriados, e tudo era respondido por um “não” ou “sim, tal coisa”. Eu me sentia entrevistando uma grande celebridade.

Eu jurava que aquela noite não daria em nada, mas na verdade, eu e F. nos pegamos por horas. Não a chamei para o meu apartamento por crer que um segundo encontro se seguiria – afinal, a pegação foi tão boa! (me arrependo até hoje dessa falta de safadeza da minha parte).

No dia seguinte, eu estava cintilando pelos corredores do hospital. Em raros momentos me senti tão feliz numa segunda-feira. Não importava o encontro super estranho ou a falta de assunto: os beijos de F. eram maravilhosos, e isso bastou para que eu, pasmem, me apaixonasse. Em poucos dias, todos os meus amigos sabiam que eu estava “encoleirada” por F., e se dependesse de mim, logo estaria entrando em um relacionamento.

Saímos mais duas vezes, sem conseguir engatar uma mínima conversa. Resultado: nunca chegamos aos finalmentes, e sequer construímos qualquer tipo de intimidade. Minha sede por novos rounds de pegação era tão grande que fiquei um bom tempo deprimida em casa.

Até hoje tento entender como foi que me apaixonei por F. Na verdade, não foi por ela que me apaixonei, mas por esse louco ideal de uma mulher e um relacionamento (algo que faltou e ainda falta na minha vida). Quando estamos carentes, deixamos de prestar atenção em sinais óbvios de que a coisa não dará certo (por exemplo, a total incapacidade de manter um assunto com a outra pessoa) e nos concentramos nas coisas boas, como as horinhas de pegação naquele domingo à noite.

O triste disso tudo é o seguinte: esse lance com F. me deixou tão ressabiada que hoje não confio mais no meu critério ao me apaixonar por alguém. Sempre fico me perguntando até que ponto estou sendo deixada levar pela carência… e enfim preenchendo o estereótipo de lésbica que adora um drama impossível.

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